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quarta-feira, 28 de abril de 2010
VANILLA TWILIGHT.
"And I'll forget the world that I knew, but I swear I won't forget you."
Eu não sabia muito que pensar, ou o que fazer. Ele tinha me assustado, ele tinha matado minhas chances de morrer, ele tinha chorado mais do que é humanamente possível. Isso só nas últimas duas horas. E ainda assim eu quis ir em direção a ele e abraçá-lo. Me sentei do lado dele e o abracei. – Eu não sabia, sinto muito. – Ele encostou a cabeça no meu ombro e nós ficamos ali por muito tempo.
Tempo suficiente para que minha irmã e toda a sua trupe chegassem em casa.
– Merda. Eu não os quero aqui, não quero que eles me vejam... – Eu percebi que por mais fragilizado que ele tivesse, o orgulho ainda era maior do que todo o resto. E decidi que seria certo sair dali. – Vem... – Sussurrei e então entrei no escritório do meu pai, ele me seguiu. Eu tranquei a porta.
Ele sorriu para mim e então disse, bem menos fragilizado do que há cinco minutos atrás. – Você promete pra mim que vai tentar? – Eu não queria tentar e ao mesmo tempo... Queria. É difícil de explicar o que estava passando na minha cabeça naquele momento. Eu não conseguia olhar para ele e perder o ar, como tinha acontecido hoje de manhã. Eu olhava pra ele e vinha um misto de fúria, de culpa. Eu ainda queria ser dele. – Prometo. – Eu disse, ainda sem olhar para ele como antes. – Eu preciso que... Preciso que você me entenda. – Percebi que ele se aproximava enquanto falava, meu corpo todo tremeu. Levantei os olhos e notei que ele estava mais próximo do que eu pensei que estivesse.
– Não faça o que você está pensando em fazer, eu não quero. – Dei as costas para ele e sentei-me no sofá. Sofá esse que tinha sido palco para cenas menos tensas hoje de manhã. Quando que tudo ficou tão complicado? Eu nem me lembrava mais. Ele se sentou do meu lado e então sorriu, um sorriso amarelo daqueles de quem não tem porque sorrir. – Eu não ia fazer nada. – Torci o nariz, numa expressão desconfiada e então me encostei no sofá, me pondo a pensar. Só pra variar um pouco.
Eu não ia mais morrer.
Não que eu tenha me transformado num ser imortal ou algo do tipo, mas eu não ia morrer tão cedo quanto achei que fosse. E isso é um baque. Quer dizer, eu vivo mais sessenta dias e depois não tenho com o que me preocupar... Agora não. Tudo tinha mudado drasticamente, eu ia viver, iam passar os sessenta dias e eu ia estar aqui. Idiota e invisível, mas eu ia estar aqui.
– Eu não sei como viver, Danilo. – Não olhei para ele, apenas fiquei observando a belíssima pintura do teto. – Não tem nada que me faça querer estar aqui. Acabei de gastar todo o meu dinheiro com esses comprimidos, não planejei ir para nenhuma universidade, nem mesmo planejei ir para a formatura. E aí, o que eu faço? Vivo minha vida inútil pensando como seria mais fácil ter morrido? – Continuei sem olhar para ele. Eu ia chorar de novo, só estava me segurando pra que isso demorasse um pouco mais. – É só viver, Freesia. – Ele respirou fundo – Sem pensar. A vida não é feita pra ser planejada, é feita pra ser vivida. E aí que você não se inscreveu pra nenhuma universidade? As inscrições vão até sexta-feira que vem. Você não sabe o que fazer? Testes vocacionais estão aí. – Ele se virou para mim e pegou a minha mão, o que meio que me obrigou a virar para ele. – O problema é que você pensa demais. – Ele sorriu, um sorriso meio torto, meio sem graça. – Uau, você já pensou em escrever livros de auto-ajuda? Acho que ganharia uma grana. – Ele começou a rir e então jogou uma almofada em mim.
Ele começou a se aproximar de mim, eu queria chutá-lo, mas não o fiz. Apenas fiquei parada. Ele estava tão perto... Ele esticou os dedos e passou pelo meu rosto, limpando minhas lágrimas. – Nós estamos bem? – Eu apenas balancei a cabeça em resposta. – Não me chute. – Ele sorriu e então seu hálito de menta logo estava queimando a minha pele, seus lábios começavam a dançar com os meus. Em pouquíssimo tempo o clima ficou... Quente.
E então a Agnes abriu a porta, chorando como se tivesse sido testemunha ocular de um assassinato. Nós dois paramos, ainda que não quiséssemos e então nos sentamos, meio desconfortáveis.
sábado, 24 de abril de 2010
EVERYTHING WE HAD.
"Take the pain out of loving and love won't exist, everything we had is no longer there."
Leia escutando: Everything We Had, The Academy Is...
Por alguns minutos eu realmente achei que ele tinha pirado. Começou a chorar muito, muito mais do que o Draco Malfoy em Harry Potter and The Half-Blood Prince, muito mais do que a Maria Madalena, muito mais do que o Jude Law em Closer. Eu simplesmente não entendia porque ele estava chorando tanto. Me conhecia há três dias. Ia ser fácil agir como se nunca nem tivesse me visto, quer dizer, as pessoas fazem isso o tempo todo. Porque ele não conseguia? – O que você pretende fazer? – Ele disse, em meio a soluços e lágrimas enquanto estava sentado na minha cama, olhando para a caixinha de comprimidos. Eu apenas o olhei, quer dizer, eu ia ter que dizer a verdade no final das contas. – O que você acha que eu pretendo fazer? – Jackass. Mas é claro, isso eu só inclui no pensamento. Aliás, porque ele estava me perguntando tudo isso? Porque ele simplesmente não ia embora? Eu não o queria aqui!
– Eu só... Não consigo entender, porque? – Então ele levantou os olhos e me encarou. Eu estava parada na frente dele. Os olhos verdes dele estavam cheios de lágrimas, cheios de decepção, de duvida. Eu não conseguia ser tão fria, não mesmo. Então eu comecei a chorar. Não é que eu quisesse isso, mas de um momento pro outro eu virei um chafariz. Depois me joguei nos braços dele e o abracei. Ele me abraçou de volta. – Você nunca ia me entender... Por isso eu preciso que vá embora, eu não posso me apegar mais a você... – Minha voz saiu esganiçada. Eu estava com a cabeça deitada no ombro dele, o perfume dele era bom. Merda, eu não queria pensar em perfumes agora.
– Eu posso tentar entender... – Ele disse enquanto me tirava de cima dele, (mesmo que eu não quisesse isso) e então eu me sentei no chão. Não tinha forças pra me levantar, eu ia gastá-las agora, contando tudo. Porque por mais idiota que fosse, eu não ia conseguir deixá-lo sem uma resposta. – Certo... – Eu desviei o olhar para o chão e fiquei movimentando meus dedos lentamente como se fossem bonequinhos. Eu parecia uma autista. Ótimo, agora eu era uma autista suicida. – Eu não sei se você já percebeu, mas eu não sou uma pessoa cheia de amigos – Não esperei a confirmação, apenas continuei. – Meu único amigo era o Giordano, não que ele queira falar comigo agora... – Dei uma risadinha ridícula – Minha irmã é a pessoa mais popular da escola, os professores não sabem meu nome, meus pais constantemente esquecem da minha existência. Todos os dias na hora da saída eu fico esperando a Agnes para vir embora. – Parei um pouco, eu não conseguiria terminar isso sem cair em lágrimas de novo. Eu revia as cenas na minha cabeça e simplesmente... Era tão terrível. – Eu faço isso desde que nós tínhamos nove anos, sabe? E até três dias atrás ninguém ali tinha sequer olhado pra mim... Eu sou invisível, Danilo. E por mais que você me diga que não sou, eu sou... – Aí as lágrimas caíram como nas cataratas do Iguaçu. – E eu não posso mais continuar assim! Eu não agüento mais a minha vida! E ela nunca vai mudar, nunca! – As ultimas palavras não eram possíveis de entender, mas eu não ia repeti-las... Apenas continuei observando o chão.
Tudo o que aconteceu depois foi inútil. Um completo silencio devastador. Eu precisava que ele falasse alguma coisa, simplesmente precisava. Mas ele ficou uns vinte minutos calado. E eu fiquei ali, olhando pro chão. Odiava aquele silencio, alguém precisava dizer alguma coisa. Nem que fosse a coisa mais idiota do mundo. E eu era a pessoa mais indicada para tal ato, afinal, era a minha especialidade. – Eu disse que você não ia entender... – Desviei os olhos para ele. Ele segurava o vidrinho de remédios com fúria. Eu via fúria em seus olhos... Eu via, preocupação. Eu não esperava que ele se preocupasse, eu simplesmente esperava que ele dissesse “Ah, ta bom então, tchau” E fosse embora.
– Eu entendo. – A voz dele saiu fria. E então ele olhou no relógio. Ótimo, ele não agüentaria ficar mais nem um minuto aqui. – Mas você não pode fazer isso... – Eu apenas o olhei. Como assim eu não podia? Eu podia e eu ia! Quem era ele pra me dizer o que eu podia fazer? Nem o meu pai fazia isso. – Porque... Porque isso pode mudar! Se você não quer ser invisível é só se impor mais... Você é uma pessoa maravilhosa e consegue fazer isso sozinha, não precisa se matar. Não precisa morrer porque sua vida foi triste, porque você nem tentou fazer com que isso mudasse! Você está conformada com isso! – As palavras jorravam da boca dele. E ele me olhava, seus olhos brilhavam, ele queria que eu aceitasse isso, mas eu não ia. Eu não podia. Isso não fazia o menor sentido.
– Está vendo como você não entende? – Eu me levantei enquanto ia em direção à janela, abrindo-a novamente. Já era tarde, não haviam carros na rua, não haviam pessoas na rua. Não havia nada além da escuridão. – Pare de olhar pelo seu ponto de vista! Porque as pessoas fazem isso? Ninguém foi Freesia di Bianchi. Ninguém sabe como é! E não dá pra mudar! E eu não vou me apoiar em você pra mudar, sabe? – Não olhei para ele e tudo ficou em silêncio por uns dois ou três minutos, até que eu me cansei e me virei.
Ele não estava mais lá, nem os meus comprimidos.
Eu não sou nenhuma estúpida, não sou uma pessoa sem coração e sim, eu me importo com as pessoas, por mais incrível que isso possa parecer. Mas, porque exatamente ele ficou tão transtornado? Aliás, porque exatamente ele decidiu levar meus comprimidos com ele? Eu gostava... Gosto do Danilo, adoro a risada dele e a habilidade suprema que ele tem de me fazer rir falando idiotices, gosto da companhia dele e do beijo dele, mas eu não o amo. E se ele me amava, se era isso que ele achava que sentia, ele nunca tinha amado realmente. Não que eu tivesse, mas isso que nós estamos tendo... Isso é o inicio de uma relação, apenas, pode haver paixão, tesão, amizade, mas não amor. É claro, ele podia dizer “Não se mate! Vou chamar seus pais e você vai se foder!” Mas fugir com os meus comprimidos, fazer um discurso motivacional para mim? Isso não é comum.
Saí correndo atrás dele, ele não podia estar muito longe, até porque eu havia trancado as portas. Aí eu escutei o barulho da descarga. E pirei, quer dizer, quem ele achava que era? Corri um pouco mais e o encontrei na porta do W.C. com a maior cara de vitorioso. As covinhas não eram mais tão fofas, os olhos verdes não me seduziam mais, nem mesmo o leve bronzeado ou a lembrança da pele macia. Eu estava furiosa.
– Qual é o seu problema, garoto? – O fuzilei e o sorriso idiota não saia do rosto dele. – O meu problema, Freesia? Nenhum, eu acabei de te salvar. – Ele disse tão calmo que eu quase acreditei. – Me salvar de quê, exatamente, Danilo? Das minhas decisões? Repito, minhas decisões e de mais ninguém. – Dei um passo para frente. Ele riu. – Acabei de te impedir de tomar uma decisão idiota por razões idiotas. Sabe porque você quer se matar? Pelo que você acha que as pessoas acham, porque você acha que é sozinha. Você acha demais. Quem se importa com o fato da sua irmã ser popular? – Ele quase gritou. – Ela também é uma puta, com o perdão da expressão. – Ele deu um passo à frente. – Você acha que é a ovelha negra da família? Pois você não é! As pessoas sabem sim quem você é, e sempre dizem “Ainda bem que ela não é como a irmã” – Eu dei um passo para trás, algo nele estava me assustando. Talvez o fato de ele estar certo. – Sabe porque eu saí contigo? – Ele deu dois passos à frente, estava incrivelmente próximo de mim. – Porque eu te achei gostosa e achei que seria fácil como a Agnes foi. – Ele começou a rir sozinho.
Um riso desesperado.
– Mas eu não sou. E nunca serei, se é isso que você está esperando, pode sair. – Ele continuou parado. – Eu ainda não terminei de falar, Freesia. Você queria saber qual é o meu problema? Eu te digo. – Ele saiu andando em direção ao W.C., de novo. Eu continuei parada. – O meu problema é que você não foi fácil! O meu problema é que você é você e que é a primeira vez em alguns anos que eu penso que eu tenho futuro com alguém. – Ele encostou na parede e olhou para mim, com os olhos marejados, de novo. – Minha ex-namorada se matou. – Mais lágrimas caíram de seus olhos.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
CHANGE YOUR MIND.
"And I said if the answer is no, can I change your mind?"
Leia escutando: Change Your Mind, The Killers.
Demorei quase duas horas pra chegar em casa. Porque as pessoas vão ao banco num sábado à noite? É só isso que eu gostaria de saber, quer dizer, eu só fui por motivos maiores... Não porque eu gosto. Agora a galera, não, sério, alguns até mesmo se conheciam! Deviam fazer uma reunião semanal de freqüentadores de bancos. Desci do carro sem dizer tchau a Alicia. Aliás, ela não estava com aparência de quem ligaria se eu exercesse o mínimo da minha educação ou não. E nem eu.
Havia um peso em minhas mãos... O da minha vida.
Andei rapidamente até a porta, a destranquei e encontrei a sala completamente bagunçada como estava quando saímos. Eu não ia arrumar. Meus pais não ligariam, eles nunca ligavam. Eu precisava mesmo era pensar. Subi até o meu quarto – tecnicamente meu e da Agnes, mas quem liga? – e quando abri a porta tive a maior surpresa que eu poderia ter.
Certo, como ele podia ser tão insistente? Mesmo com os olhos verdes inchados do que eu esperava ser da maconha que ele fumou, ainda continuava gato. A pele continuava no mesmo tom levemente bronzeado, o corpo continuava definido, o sorriso continuava branco e a voz continuava irresistível. É claro que isso não mudava nada... Eu simplesmente não queria falar com ele! – Eu pensei que tivesse dito pra você sumir daqui. – Eu disse, categórica enquanto jogava minhas coisas na cama. É claro que joguei minha blusa por cima do potinho de comprimidos, não queria que ele soubesse de nada.
– Eu só quero entender porque, Freesia – Ele começou a chorar. Olha, eu sou a pessoa mais antidrogas que eu conheço, mas a minha vida seria muito mais fácil se ele estivesse completamente chapado. Só. – Foi algo que eu fiz? O que foi? Eu posso concertar, mudar... Tudo parecia estar tão bem... – Procurei frieza em todo o meu ser, quando, na verdade eu queria me jogar nos braços dele e dizer que eu tinha sido uma idiota. Mas é claro, eu não podia. – As aparências enganam. Agora, por favor, vai embora. – Estava me segurando pra não chorar. Já não bastava aquela cara vermelha e inchada dele e a minha, que estava se recuperando. Eu simplesmente não podia chorar... Se eu chorasse ele saberia que havia algo errado. E oi, ele não pode saber porque:
a) Não é muito legal escutar que uma pessoa está querendo se matar;
b) Ele ia querer me fazer mudar de idéia, igual a todas as outras pessoas. E é como eu sempre digo, eles não vivem como eu vivo e não sabem o que eu passo/passei.
– Não, Freesia, não enganam – Ele levantou e veio em minha direção, provavelmente me abraçaria. Mas eu lancei um olhar tão mortal que até o Darth Vader sairia correndo e pedindo ajuda para a mamãe. – Eu só queria saber... – Ele foi dando passos para trás até que sentasse na cama (cheia de espermatozóides mortos) da minha irmã e então continuou falando – ... O que você estava fazendo no carro daquela traficante? – E me encarou com os olhos mais verdes, lindos e decepcionados do mundo. Alguém arranja um buraco? Porque eu quero cair nele.
– Traficante? – Fiz a maior cara de quem não sabia de nada, é claro, ou ele esperava que eu falasse “Ah, sabe como é... To precisando me matar e ela conseguiu uns comprimidos, by the way, é por isso que estou te dando um pé na bunda. Beijinhos” Claro que não e se esperava, bem, ele não ia ter a resposta que queria. Obviamente. – Do que você ta falando? – O encarei com a maior cara de decidida que eu consegui, mas é claro, ela não era muito boa.
Porque ele tinha que complicar tudo? Aliás, porque ele tinha aparecido na minha vida? Não era pra ser assim... Não mesmo. – A Alicia. E não faça essa cara de quem não sabe de nada, você acha que nós compramos drogas com quem? – Ele estreitou os olhos e ficou me encarando por alguns segundos. Mas eu não respondi. Não podia. Tinha sido pega na mentira e agora tinha que encarar as conseqüências. Fiquei apenas parada enquanto ele levantou, trancou a porta do quarto e fechou a janela, em seguida, fechou a cortina. Ótimo, agora ele acha que eu uso drogas e vai me estuprar. – O– o– quê você ta fazendo? – Gaguejei quando ele veio em direção a mim. Eu tinha certeza, ele ia me estuprar.
Acho que esse é o castigo que ele encontrou pra me dar. Sério, cadê a criatividade desses jovens de hoje em dia?
Mas não. Ele não me atacou na parede, não me chamou de lagartixa. Infelizmente, quer dizer, claro que isso ia contra as minhas convicções, mas o que ele fez depois foi pior. No ultimo segundo desviou até minha cama e então levantou a minha jaqueta.
Fez a maior cara de assustado quando viu a caixa de comprimidos. Ué, ele esperava o quê? Uma seringa com heroína prontinha pra ser usada?
É, acho que sim.
sábado, 17 de abril de 2010
I'M YOUR VILLAIN
"I know what I am and I'm your villain, oh, no, I don't give a damn if I'm your villain."
Leia escutando: I'm Your Villain, Franz Ferdinand.
– Quase não acreditei quando te vi na rua, achei que você não saísse – Ela me lançou um olhar penetrante. – É, algumas coisas mudaram. – Sorri nervosamente. E então ela segurou o meu braço e me arrastou para dentro de seu carro. Não é que eu não gostasse, afinal, não estava muito a fim de gastar mais ainda a sola dos meus sapatos. Mas eu não queria estar no carro dela, aliás, nesse momento, a última pessoa com que eu gostaria de falar é Alicia Fontinelli.
Sete coisas que você precisa saber sobre Alicia Fontinelli
1. Ela é uma aluna da faculdade;
2. Vende drogas apenas para pagar o absurdo valor da faculdade de medicina;
3. É a pessoa mais assustadora que você vai conhecer, porque ela é a personificação do demônio.
4. Eu devo algum dinheiro a ela, afinal, conseguir os comprimidos que eu preciso não é uma tarefa fácil;
5. Ela acha completamente repugnante a idéia de eu querer me matar;
6. Eu acho repugnante a idéia de ela julgar alguma coisa. Se eu fosse ela e tivesse pernas imensas também acharia a vida bem fácil;
7. Ela é amante do meu pai.
É claro, ela queria falar sobre negócios. Eu estava devendo mais de setecentos euros para ela, mas simplesmente não podia pagar ainda. Eu tinha um plano, alguns dias antes de morrer eu tiraria o dinheiro da minha poupança e transferiria para a conta dela. Depois, deixaria o resto do dinheiro para que minha irmã possa pagar uma faculdade suficientemente boa, afinal, ela gastou a poupança toda em roupas da DOLCE&GABANNA no ano passado. O que foi uma tremenda idiotice, afinal, as roupas já são de coleção anterior. – Eu consegui seus comprimidos, preciso do dinheiro – A voz dela era séria, profissional e ela não deixava que nenhuma emoção passasse. Mas claro, eu sabia que ela estava muito feliz por estar matando a filha de seu “namorado”. Aí minha mãe entraria em depressão e ele a largaria para ficar com ela.
Claro, isso no mundo rosa e cheio de flores dela. Porque eu era a filha odiada, a ovelha negra. Eles simplesmente não perceberiam que eu fui embora. É triste, mas é a verdade. – Você sabe que eu só posso transferir o dinheiro daqui a algum tempo, está no nosso trato, lembra? – Relembrei a ela do “contrato” que nós tínhamos e que ela simplesmente fingia esquecer todas as vezes que me via. – Freesia, eu preciso do dinheiro agora! – Seus olhos estavam furiosos e eu me afastei um pouco dela no banco do porshe vermelho. Ela havia estacionado numa ruazinha vazia onde só moravam imigrantes ilegais e judeus. – Alicia, nós combinamos algo diferente, não se lembra? – Me mantive firme. Firme demais para alguém que estava morrendo de medo.
– Eu preci... – A voz dela saiu abafada pelas buzinas de um porshe amarelo que havia parado atrás. O Danilo saiu de lá, estava nervoso e já ia brigar com a idiota que estava fechando o caminho quando me viu. – Freesia? Eu estava procurando por você. – Eu olhei para ele e não consegui evitar, as lágrimas começaram a escorrer. Eu não queria ser rude, não queria que acabasse assim. Mas eu preferia que ele me odiasse, simplesmente assim. – Eu estava fugindo de você! Eu não quero mais falar contigo! Nunca mais! – Eu disse, fechando o vidro do carro rapidamente e então olhando para Alicia. – Você me leva até um banco e eu te dou o seu dinheiro. – Legal. Agora eu ia falir antes mesmo de morrer.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
SKEPTICS AND TRUE BELIEVERS
"So you're selfish, and I'm sorry when I'm gone you'll be going nowhere fast."
Leia escutando: Skeptics And True Believers, The Academy Is...
Fiquei sozinha durante o jogo inteiro. Não entendi nada. E eu juro que tentei, até gritei um pouco quando toda a arquibancada fez o mesmo. Mas é claro, ainda me sentia deslocada. Todas as vezes que olhava pro lado me perguntava porque estava ali. Claro, era pelo Danilo. E pelo modo como a minha vida havia mudado estranhamente nos últimos três dias... Mas mesmo assim, não fazia sentido.
Eu era Freesia di Bianchi. Provavelmente a garota mais solitária do meu colégio. A suicida em potencial. Aquela que só tinha um amigo. Irmã de Agnes di Bianchi, a garota mais popular de toda a escola. Eu era inteligente, mas não o suficiente para ser considerada uma nerd. Eu era legal, mas não o suficiente para ter muitos amigos. Eu era bonita, mas não o suficiente para que alguém – Além do meu melhor amigo – gostasse de mim. Eu era solitária. E eu realmente não deveria estar aqui. Isso era um erro, os últimos dias haviam sido errados.
Não fazia parte do ciclo natural das coisas, até porque, no circulo natural eu morria. E isso ia acontecer, sabe? Eu ia morrer. E queria continuar invisível como sempre fui, não quero que as pessoas reparem em mim ou que percebam que eu estive aqui em algum momento. Talvez eu seja egoísta, mas antes eu não ligava pro fato de elas sofrerem. Porque elas não iam. Mas agora, agora eu não sei mais. As pessoas pareciam interessadas e provavelmente, quando eu voltasse à escola, todos se interessariam. Afinal, eu estava meio que namorando um dos jogadores de Futebol e isso era grande. Isso era grande demais para Freesia di Bianchi.
Me levantei do banco da arquibancada. Tudo era um erro, eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar com em casa, falando mal das pessoas no telefone, escutando meus discos, vendo meus filmes. Não deveria ter saído de casa num porshe amarelo, não deveria ter beijado o Danilo, não devia ter sido legal com a minha irmã. O que eu estava pensando quando deixei isso acontecer?
Os garotos estavam no vestiário. O jogo havia acabado. Minha irmã estava se agarrando com a Laura enquanto milhões de pessoas ficavam à sua volta e tiravam fotos com o celular. E eu? Bom, eu estava com os olhos encharcados de tanto chorar e atravessando o campo em direção à saída.
Como eu ia para casa? Não faço a menor idéia, afinal, eu não dirijo. O Giordano dirige, mas duvido que ele queira falar comigo agora. E eu não ia ligar para os meus pais. Não mesmo. Até porque eles não estavam em casa.
Por isso eu fui a pé.
Certo, digamos que eu estou acostumada a ir a pé para casa todos os dias. É longe, eu sei. Mas eu vou. Simplesmente vou quase todos os dias, com exceção dos dias em que o Gio pode me levar. Só que agora parecia tão mais difícil. Porque eu era idiota o suficiente pra deixar que minha vida virasse essa confusão? Eu estava simplesmente iludida e é ridículo pensar que eu realmente cogitei a idéia de abandonar as minhas convecções, tudo por culpa de um garoto idiota. Lindo, mas idiota. E que beijava bem, mas ainda assim, idiota.
Então eu escutei uma buzina. Uma buzina violenta que eu infelizmente reconheci. Não queria ter reconhecido, não mesmo. Era a buzina de um porshe. E então eu me virei, com o discurso que eu havia pensando nas ultimas horas completamente decorado, eu estava tão pronta pra falar. Cheguei até mesmo a abrir a boca.
Mas não era um porshe amarelo.
Era um porshe vermelho, e nele, não estavam as pessoas desprezíveis da minha escola. Ali estava Alicia Fontinelli. Com suas grandes e bronzeadas pernas, seu cabelo louro e seu sorriso completamente branco. Ela parou o carro no meio da rua – sim, literalmente no meio da rua – e abriu a porta. Vestia algo que ela chamaria de vestido e eu de camisola, mas era azul. Um azul tão intenso quanto seus olhos. Então ela disse – Nós temos que conversar. – E eu assenti, afinal, como você pode dizer que não quer falar com a traficante que está conseguindo seus comprimidos?
quinta-feira, 1 de abril de 2010
HOW GOOD IT CAN BE.
"And it's hollow and greased and it says that you're dead but you make fun and tease and the things that you said."
Leia ouvindo: How Good It Can Be, The 88.
Não demorou muito pra que eu me arrumasse, até porque, eu nunca fui de me preocupar em agradar as pessoas com que eu estava vestindo... Mesmo que essa pessoa fosse o Danilo. Nunca, e se ontem ele não reclamou da minha roupa, a diferença é que hoje eu usava uma camiseta dos “playmobeatles” e não uma do Libertines. E claro, usava outra calça jeans, mas ainda sim era jeans. Então eu não demorei pra me arrumar, mas fiquei um bom tempo sentada na cama pensando em como eu colocaria em prática o meu plano de ontem. Não podia ser hoje, eu não sou egoísta a esse ponto, quer dizer, é o grande jogo dele. Então amanhã eu faria isso.
Fechei os olhos e fechei minhas mãos num punho, fiquei assim por uns cinco minutos, até que tomei coragem e levantei. Saí do quarto, apaguei a luz e comecei a descer as escadas... Aterrorizada. Ninguém odiava mais aqueles ogros do que eu, não mesmo. Cheguei ao pé da escada e lá estava a Agnes, juntamente com suas três amigas, cantando em cima da mesa e quase ficando nuas enquanto os garotos babavam. Todos, menos o Sandro, que aparentemente não estava lá. Ou tinha ido pro banheiro, sabe como é, liberar.
– Err, oi. – Eu não tinha reparado que o Danilo não estava no meio dos rapazes, na verdade, eu já estava bem puta com isso. Mas aí ele surgiu do escritório do meu pai e disse – Vem cá, antes que seja contaminada por eles – Evitei rir e entrei lá como se fosse a coisa mais normal do mundo entrar num quarto com um garoto bonito daquele jeito. Bom, pra mim não era, mas não posso responder pelo resto das meninas e/ou meninos que gritavam como animais no cio na sala.
Quando entrei no escritório do meu pai, fiquei meio felizinha, achei que fosse dar uns amassos no Danilo. Coisa que eu tinha decidido que era completamente aceitável, considerando que eu daria um pé na bunda dele daqui a um tempo, ou melhor, daqui a dois dias. Mas ai minha alegria se esvaiu. O Sandro estava num cantinho chorando igual a um bebê e o Danilo – do jeito mais fofo do mundo – estava tentando acalmá–lo. Daí ele olhou pra mim e disse – Sério, nós precisamos de uma opinião feminina...– Eu fiz uma cara de “quê” e fiquei pensando em porque raios eles queriam a minha opinião, até porque, feminina é uma coisa que eu não sou, muito. – Hm, pode falar... – A insegurança na minha voz era clara.
– Sua irmã terminou comigo, Freesia. Sabe porque? Porque ela e a Laura decidiram brincar juntas e gostaram – Ele levantou e deu um soco na parede – Que humilhação, fui trocado por uma garota... E agora elas estão se agarrando lá na sala. E todos sabem que eu sou um corno. – Não sei por qual motivo eu fiquei tão assustada, se era a primeira vez que o Sandro falava uma frase com mais de cinco palavras, se era porque ele tinha acertado meu nome ou se era porque minha irmã era lésbica. Não sei porque, mas eu tive que sentar.
– Minha irmã é lésbica? – Me limitei a dizer isso e então o Sandro me olhou com uma cara de que ia me matar e me deixou assustada mais uma vez, na verdade, fez algo que eu nunca imaginaria... Ele foi irônico. – Não, Free, imagina... Ela e a Laura estavam brincando de bonecas e decidiram que preferem fazer isso do que transar comigo. É óbvio que ela virou lésbica! – E aí eu fiquei ali, parada, com muito medo da minha irmã curtir incestos também e já me preparando pra trocar de quarto, estava fazendo todos os planos na minha cabeça quando notei o Danilo sentando atrás de mim e dizendo – Na verdade, nós queremos saber o que ele pode fazer pra reconquistá–la...
Continuei com a maior cara de cu até que decidi que havia um jeito – Você podia assumir ela como namorada, sabe, apresentar pros teus pais... Dar uma aliança, essas coisas. – Respirei fundo – Ou então faz uma cirurgia de troca de sexo. – E aí o Sandro me fuzilou como se eu tivesse dizendo a coisa mais absurda do mundo, depois fez umas caretas e se levantou tão rapidamente quanto o papa–léguas. – Vou comprar flores, alianças, chocolates e... Contratar uma banda. Tchau, obrigado Freesia.
– Não há de quê – E ele se foi, todo veloz, enquanto eu me virava pra olhar o Danilo que estava com uma cara de preocupado. – Essa coisa de ser lésbica, não é hereditária, certo? – Ele me olhou assustado e eu não pude evitar, quer dizer, eu nunca me imaginei com uma mulher e nem mesmo senti tesão ao ver uma nua – E acredite, meu melhor amigo é nerd, eu bem já vi. – Também nunca quis aparecer pros meus pais, já me acostumei ao fato de eles não me notarem e eu teria gritado um “NÃO!” Tão sonoro pra ele se não fosse aquela cara de assustado que deixava uma brecha tão grande... – Na verdade, eu estava olhando a Christie agora e... Que bundinha não? – Eu sorri e então passei a língua no contorno dos lábios. Ele continuou assustado e então nós caímos na gargalhada. – Você é uma péssima lésbica, sabia? – Eu olhei pra ele e ri, não respondi nada, meu riso era como um sim. Pelo menos eu achei que fosse.
Coisas completamente legais de se fazer num sábado de manhã:
1. Ser acordada pelo amigo tarado da sua irmã que se mostrou perfeito e não tarado;
2. Descobrir que sua irmã é lésbica e cair na gargalhada;
3. Se assumir lésbica pro cara completamente perfeito e ele achar engraçado;
4. Logo depois de rirem juntos como hienas ele se aproximar de você;
5. Beijá–lo durante muito tempo e ficar na duvida sobre o porque demorou tanto pra fazê–lo.
Estávamos ali nos beijando há pelo menos uns dez minutos. É claro que nós parávamos pra respirar, ninguém aqui é o Edward Cullen, mas tirando as paradinhas pra breves momentos de ar puro, eu deixei ele enfiar a língua na minha garganta e garanto, é muito bom. Então estávamos lá, a mão dele passando pelo meu corpo e eu sem saber o que fazer com as minhas próprias mãos quando minha irmã abriu a porta e ficou lá, parada. Só depois de alguns segundos ela voltou à vida e disse – O jogo começa daqui ha uma hora, vamos? – Aí o Danilo levantou, olhou pra ela e disse que nós já estávamos indo. Antes de sair a Agnes lançou uma piscadela idiota pra mim e eu fiquei na duvida se era um “muito bem” ou se era um “sou lésbica e curto incestos, vem cá” mas achei melhor não ficar pensando muito nisso.
Eu estava completamente vermelha, parecia um tomatão, mas achei melhor não comentar. Quer dizer, era visível e eu podia guardar minhas angustias sobre meu dom de ficar tão vermelha em tão pouco tempo pra mim mesma. Ele me abraçou e ninguém disse nada, ficamos num completo silencio até que saímos do escritório do meu pai e o resto das pessoas estavam lá, gritando como loucas.
No carro dele fomos apenas nós dois, ele pediu pra que eu conectasse o meu iPod ali e nós fomos escutando Beatles o caminho inteiro, ele até curtiu Twist and Shout, mas fez uma cara completamente estranha quando começou a tocar Strawberry Fields Forever. Eu fiquei meio puta com isso porque eu gosto da musica, mas gostos não se discutem. Depois ele foi passando as musicas até Something, disse que gostou da letra. Pelo menos isso, pff. Uma das musicas mais lindas do mundo.
– Na volta, nós vamos escutar as minhas musicas. – Eu assenti, com um pouco de medo, quer dizer, essas musicas que ele escutava eram tão... 50cent, sabe? Mas já que ele havia escutado as minhas, bem, eu não podia reclamar muito. Saímos do carro e eu me sentia bem, mesmo que estivesse num ambiente diferente do que eu costumo estar. Que soubesse que estava sobrando ali, bem, eu me sentia bem.
Não demorou muito para que esse sentimento passasse, nós entramos no campo e eu me vi completamente sozinha. A Agnes e suas seguidoras foram se aquecer; O Danilo e os trogloditas foram pro vestiário. E o Sandro, bom, sabe–se lá onde ele estava a essa altura. E eu fiquei só.
Aí me senti completamente deslocada.
sexta-feira, 26 de março de 2010
THINGS WE SAID TODAY.
"Someday when we're dreaming, deep in love, not a lot to say. Then we will remember things we said today."
Leia escutando: Things We Said Today, The Beatles.
Cheguei em casa e fui completamente bombardeada de perguntas. Minha irmã queria saber absolutamente tudo e eu, sinceramente, não estava interessada em compartilhar nada com ela. Eu queria manter aquilo comigo. – Mas, vocês se beijaram? – Ela quase gritou enquanto eu tentava tomar banho e ela conseguia ser insuportável do lado de fora do Box me fazendo as perguntas mais fúteis. – Não, quase, mas não. – Me contive em dizer aquilo e não contar como o hálito de hortelã dele havia me feito derreter.
– Segunda feira, no colégio, você nem pense em ficar perto daquele seu amigo sexualmente inativo, quer dizer, você vai ficar com o Danilo, não? – Eu desliguei o chuveiro e então enrolei uma toalha em volta do meu corpo, saindo dele. – É, e eu duvido mesmo que o Giordano queira falar comigo. Ele provavelmente está falando mal de mim pros amigos dele. – A Agnes me olhou com cara de quem não entendia. – Que amigos? Ele só tem você! – E então eu me dei conta de que eu era a única pessoa que sabia dos amigos virtuais dele. – Ah, os amigos virtuais dele. – Aí ela caiu na gargalhada. – Esse é o cumulo da solidão. – Na verdade não era, mas bem, deixe ela se enganar.
Eu sai do banheiro e deixei ela se maquiando. Sim, minha irmã se maquiava pra dormir, o que não é nada normal, mas eu tenho que entender, coitada... Aqueles produtos pra cabelo realmente fazem mal, sabe? Deixam as pessoas completamente loucas.
Coloquei minha camisola e então deitei na minha cama, nem me lembrando do nojo que havia sentido há um certo tempo atrás. Quer dizer, eu lembrei na hora em que estava deitada. Daí eu gritei – AGNES! – Tive que gritar umas cinco vezes até que ela aparecesse com a escova de dente dentro da boca e uma cara de quem não entendia absolutamente nada do que eu estava dizendo. – Agnes, você e o Sandro transaram na minha cama? – Ela riu com a pasta de dente na boca, uma coisa completamente nojenta, se você quer saber. – Não, Freesia, boa noite.
Eu fechei os olhos e bem, tentei dormir, mas não consegui. Claro que não, hoje haviam acontecido coisas completamente estranhas e eu precisava pensar sobre isso. O que eu ia fazer? Porque, por um lado, o Gio estava certo na hora em que surtou... O próximo passo seria qual? Talvez namorá–lo, não que essa seja uma má idéia. Mas, mas bem, eu ia virar uma líder de torcida idiota? Eu ia começar a achar a Agnes menos insuportável do que achei a minha vida inteira? Ou pior, eu me tornaria uma pessoa insuportável como ela? Sério, essas coisas martelavam na minha cabeça e eu tive certeza de que, não ia valer a pena ter nada com ele e nem mesmo pensar em ter algo com ele. Porque, bem, porque eu ira morrer. Por livre e espontânea vontade, mas eu ia morrer. E bem, não ia mudar minhas convicções por culpa de um garoto, jamais. Nem mesmo queria fazê–lo sofrer quando eu morresse.
Então eu decidi: Vou acabar com isso antes que comece realmente. Nunca daria certo, de maneira nenhum, quer dizer, olha pra mim... Olha pra ele. Demorou um pouco, mas acho que lá pras cinco da manhã eu caí no sono.
Acordei com a minha irmã gritando. E sério, isso não é bom, em nenhum circunstancia. Jamais. – Freesia! Freesinha! Free! – Ela gritava descontroladamente do lado da minha cama e quando eu abri meus olhos só consegui pensar em uma coisa “Eu to completamente ferrada” Isso porque meu quarto, ou melhor, nosso quarto estava com três das pessoas mais insuportáveis de todo o planeta: Sabrina, a melhor amiga da minha irmã e provavelmente a pessoa mais loira de todo o planeta que sorria descontroladamente e ria igual a uma hiena, ela tinha sérios problemas com isso. Laura, amiga da minha irmã e capitã das lideres de torcida que tinha aquela mania chata de separar as silabas de todas as palavras. E por ultimo, mas não menos insuportável, Cristina, que preferia ser chamada de Christie e que era uma completa wannabe minha irmã e uma vez me pediu um fio de cabelo dela. Sério.
Me cobri de novo e então disse em alto e bom som. – Dá pra vocês saírem do meu quarto? – E então todas fizeram caras fabricadas de cheerleaders tristes e saíram do quarto. Todas, menos uma pessoa. – Agnes, eu odeio acordar com pessoas em volta da minha cama, pareço que sou um paciente recém–saído do coma ou algo assim. – Aí, ainda sem tirar o cobertor do meu rosto amassado eu ia me levantando. Levantei até que meu cobertor caiu de cima de mim e eu me deparei com o Danilo, é o Danilo, ali, do lado da minha cama. Com um buquê de flores pra mim e com uma cara de idiota. E eu tava lá, com a minha camisola que mais mostrava que escondia. Pulei de novo e me cobri tão rápido quanto um elefante correndo de um rato. – O que você tá fazendo aqui? – Tentei esconder a surpresa na minha voz mas era impossível. – Eu, bem, vim te convidar pra ver meu jogo hoje.
– Tão cedo? – Ele me olhou com uma cara de assustado. – Freesia, são quatro horas da tarde. – E então olhou pras flores que havia trazido, logo tentou se desculpar por elas. – Bem, eu sei que você não gosta de flores, mas não sabia mais o que trazer... Se você não quiser, tudo bem, eu amasso elas. – Ah, que fofura. Mas agora eu tava nua, sabe? – Claro que eu vou no jogo, só que, bem, eu tenho que acordar antes... Isso não é um problema, né? – Ele assentiu – Claro que não, eu vou ficar lá embaixo com o pessoal e você, bem, você acorda enquanto isso. – Meus olhos arregalaram. – Como assim? Pessoal? – Me enrolei um pouco mais no cobertor e então olhei para a rua. Sério, como eu tinha conseguido acordar tão tarde? A sorte não é minha amiga. – O time, tá todo mundo lá embaixo. Seus pais saíram.
– Ta tendo uma festa lá embaixo? – Eu quase gritei. Sério, isso não é normal de acontecer comigo, me belisquei discretamente e, era verdade, de novo era verdade. Mas era uma verdade muito surreal. – É, quase isso... Você acabou mesmo de se beliscar? – Eu corei, quase enfiei meu rosto embaixo do cobertor de tanta vergonha. – Danilo, eu posso acordar e colocar uma roupa e depois te falo sobre minhas tendências ao masoquismo? – Ele assentiu, rindo e então saiu do quarto, mas disse baixinho antes de sair. – Aposto que faria um sucesso com essa roupa lá embaixo. – Aí eu gritei, tão descontroladamente quanto minha irmã há menos de dez minutos atrás. – SAI!
quarta-feira, 17 de março de 2010
FAST TIMES
"All we ever think about is sex, nothing really matters 'cause we're young."
Leia escutando: Fast Times, The Virgins.
Entramos naquela sessão completamente vazia. Sim, eles escolheram aquele filme infantil idiota que ia sair de cartaz amanhã. Aquele filme que ninguém ia ver. Então, basicamente, só estávamos nós quatro naquela sala. É claro que naquela sala porque o resto do cinema estava lotado de todo o tipo de gente. Mas na sala, bem, na sala só tínhamos nós quatro. E eu acho que vi o Sandro esticando um dinheiro pro lanterninha, porque ele não apareceu por ali. Daí eu lembrei da conversa que havia tido com a minha irmã hoje mais cedo “Ai, sua besta. Mas isso nós já fizemos, ou você acha que eu vejo filmes no cinema?” E aí eu paralisei. Ou aquele idiota, completo idiota, tava achando mesmo que eu ia transar com ele ali? Tocar a minha linda virgindade? Não. Não. Mil vezes não.
Sabe porque não? Bom, porque eu tinha planos pra minha vida... Ou melhor, pro que restava da minha vida. Eu ia morrer completamente virgem. Eu tinha decidido isso, quer dizer, eu não ia correr agora só porque ia morrer. Não. Eu ia viver como sempre vivi, durantes esses longos dezoito anos, até que, bem, até que a vida não me fosse mais suficiente. Isso é, daqui a sessenta e seis dias.
Sentei numa cadeira na frente e ele se sentou do meu lado, daí veio com aquele corpo musculoso pra cima de mim, tentando me agarrar. – Olha, eu não vou dar uns amassos com você, não vou transar com você... Nem sequer vou te beijar, eu vou é assistir esse filme super... Fascinante. Então se você parar de se jogar em mim eu vou agradecer, certo? – Sorri de maneira irônica e então comecei a ver os trailers que passavam na grandiosa tela que estava na nossa frente. Ele se calou e limitou a segurar minha mão.
Depois, quase na metade do filme eu entendi porque a sala estava vazia. Mas que filme chato. Tava até considerando dar uns amassos no Danilo, que tava meio que cochilando no meu ombro de tão chato que o filme era. – Acho que esse é o filme mais chato que eu já vi na minha vida – Eu disse, meio pra dentro, guardando meu comentário super desagradável apenas para mim. – Pelo menos nós concordamos em alguma coisa... – Ele acordou de seu “cochilo” e virou–se pra mim, respondendo com um pouco de rispidez.
– Olha, não vai ficar bravinho comigo porque eu não quero sua língua na minha garganta, eu nunca disse que faria algo, certo? – Eu disse, ríspida também, quer dizer, eu era a estressada aqui. Ninguém podia ser ríspido comigo daquele jeito. – Bravinho? Eu estou fascinado mesmo. – Fascinado? Ai, que piada. Fascinado porque eu sou algum tipo de mutante que não quer sentir suas mãos pelo meu corpo? Ah, peloamor. – Na verdade, você sabe que quase todas as garotas da escola, talvez da cidade gostariam de estar no seu lugar, né? Tendo a minha língua na garganta delas, como você disse. – Ele soltou a minha mão – Mas você não... Na verdade, a coisa que você mais faz é me desprezar, e isso é fascinante... Terei que pensar em maneiras de te conquistar.
– Nossa, como você é engraçado. Então quer me conquistar porque? Porque eu seria seu prêmio? “Olha conquistei a única garota que não tava me querendo! Sou o bom” – O imitei numa voz bem escrota, achei que ele me odiaria por isso, mas ele riu. – Quer dizer, se for isso, não perca seu tempo. – O olhei esperando que ele respondesse. Ele tomou um pouco de ar e então se preparou pra responder.
– Na verdade, eu não quero me sentir o “bom”, como você disse e nem mesmo quero provar pra mim mesmo que eu consigo algo que considero quase impossível... Bem, considerando o que a sua irmã disse sobre você nós não temos nada a ver, mas eu quero tentar. – E aí ele segurou a minha mão de novo, de um jeito seguro, de um jeito que me impediu de derreter, porque eu o teria feito. – Quero tentar porque você realmente é fascinante, faz um tempo que eu estou de olho em você, Freesia. E eu estou simplesmente encantando. – Ele respirou fundo enquanto olhava fundo nos meus olhos incrédulos – E eu acho que posso te surpreender... – E então ele me olhou e sorriu. Aqueles olhos verdes me encarando, me dizendo “Olha como eu sou bonito, olha como eu sou gostoso, que tal você me beijar?” Que estavam me deixando um pouco pirada.
– N–Nossa, eu... Eu não sei o que te dizer. – Fiquei olhando pra ele meio boquiaberta, com uma cara de “olha como eu sou idiota e patética, que tal você me beijar?” Que provavelmente só eu conseguia fazer. E ela era aterrorizante. – Sabia que essa foi a primeira coisa não irônica que você me disse desde que saímos da sua casa? – Eu o olhei com um pouco de vergonha. – Desculpa, eu tenho uma certa tendência a ser insuportável... – E ele me olhou com aqueles olhos verdes de novo, caramba, ele queria me ver derreter quanto mais? – Eu vou tentar uma coisa, não se mexe, fecha os olhos...
Tá, ele ia me beijar. Legal. Muito. Eu provavelmente estou com um bafo de onça, credo. Mas fui lá, fechei os olhos. Senti o rosto dele se aproximando do meu, sua respiração ficando mais próxima, seus lábios estavam quase encostando nos meus e eu podia sentir o cheiro de hortelã que vinha de seu hálito. E aí uma luz surgiu no meu rosto. Eu abri os olhos um pouco assustada e o lanterninha estava ali, na nossa frente com a lanterna na nossa cara, me deixando cega. – Você pode desligar isso? Eu to ficando cega. – Ele apagou e então disse – A sessão acabou há vinte minutos, vocês tem que sair da sala. – Merda. Maldito seja aquele lanterninha. Eu estava prestes a atacá–lo e dar uma de Hannibal com ele quando o Danilo segurou a minha mão e disse – Sem problemas. – Logo me arrastando pra lá enquanto eu lançava olhares assassinos praquele idiota.
Nós saímos da sala e fomos procurar minha irmã e o Sandro mas eles, aparentemente, haviam sumido. – Como eu vou pra minha casa sem ela? – Eu disse num tom de preocupação, quer dizer, se meus pais não fossem tão inúteis eles provavelmente fariam um interrogatório sobre o fato dela ter sumido. É claro que, bem, eles não fariam. Mas eu gostava de me enganar com relação a isso às vezes. – Mas você não vai pra casa agora, ou vai...? Quer dizer, nós nem conversamos muito. – Eu o olhei e então segurei a sua mão. Eu segurei a mão dele, olha isso, que atirada que eu era! E o puxei em direção a Starbucks que havia do outro lado da rua – Então vamos pra um lugar onde possamos conversar. – Ele me olhou sem entender muito e então viu a Starbucks, daí me arrastou pra lá com uma facilidade absurda. Fazendo exatamente o que eu havia tentado há minutos atrás e não havia conseguido graças à minha fraqueza.
Entramos lá e nos sentamos em uma mesa vazia. Algumas garotas olharam pra ele, obviamente o conheciam, mas eu me contive e fiquei na minha. Eu conseguia fazer isso. Acho. – Me fale algo sobre você... – O olhei incrédula, quer dizer, o que eu poderia dizer sobre mim? E daí eu pensei em algo idiota. Completamente fútil – Hm, eu odeio flores. E acho verde uma cor estúpida. – Ele riu, riu alto. Não havia sido tão engraçado. – Então eu acho que terei que comprar lentes de contato... – Eu o olhei, sem graça. Ah, como eu era idiota. Como podia não ter percebido que verde era a cor dos olhos dele? – Não, não precisa... O verde dos teus olhos não é estúpido.
Conversamos por horas, e falamos de absolutamente tudo. Ele disse que me mostraria alguns raps que valiam a pena ouvir e eu mostraria que existe rock que não é pura gritaria. Ele disse que havia gostado da minha camiseta. Eu bati nele porque sabia que estava olhando pros meus peitos. Em três horas ele sabia tudo de interessante que havia para se saber sobre mim e eu, bem, eu acho que ele fazia mesmo o meu tipo. Ele tirou uma foto fofinha minha e colocou no meu contato do telefone, eu fiz o mesmo. Depois, quando minha irmã surgiu eu fui embora. Ele me deu um beijo na bochecha e me desejou boa noite.
Minhas pernas tremeram.
sábado, 13 de março de 2010
STRANGERS
"‘Cause strangers talk, be careful what you feel, there's something there; I told ya, I'm not done with you."
Leia escutando: Strangers, do Van She.
Não me entendam mal, eu amo minha mãe e minha irmã. Mesmo que minha irmã seja uma completa vadia o tempo todo e a minha mãe se preocupe com tudo, menos comigo. Só que ambas tinham esse desejo assassino de amor! Não me entenda mal, não é que eu não queira me apaixonar. É só que... Bem, eu não fico avisando isso para todos o tempo todo e nem sou completamente insuportável, tipo, não fico procurando namorados o tempo todo. Não quero. Acho que quando o amor me encontrar, olha que bom, me encontrou. Se não me encontrar eu vou continuar, ou não, vivendo. Simples assim. Agora, elas ficam procurando, querendo, atiçando... Me vestindo com roupas cor–de–rosa e vestidos floridos.
– Para! Para! Eu não vou colocar esse vestido, ta entendendo? Não! – Eu olhei pra ela com um olhar de morte enquanto via a mim mesma da maneira mais ridícula possível no espelho... Eu tava parecendo, a Madonna na época de Like A Virgin, sabe? Eu não tava bonita... Eu tava parecendo uma vadia. E depois disso a minha mãe concordou. – Mas minha filha, essa roupa que você ta usando agora é muito... – Ela tossiu, pigarreou, engasgou. Tudo ao mesmo tempo. – Bem, ela não é muito aconselhável pra se usar num encontro com um rapaz, entende? Esse vestido é tão mais bonito... – E apontou pra um vestido completamente ridículo, todo cheio de florzinhas verdes. Tipo, um que a minha avó usaria.
– Não, mãe. Eu odeio flores, entende? E eu também odeio verde. – Aí a Agnes olhou pra mim assentindo, pelo menos ela tinha um certo sentido das coisas. – E eu vou usar minhas roupas normais... Eu não to querendo impressionar ninguém ou arranjar um namorado, entendam, eu só vou nessa merda porque a Aggie ta insistindo. – Fiquei esperando resposta, mas nada, acho que elas entravam em transe todas as vezes em que as pessoas eram ríspidas com elas, ou algo assim. – Agora, me deixem me trocar, vai. – Ai minha mãe deu um sorriso triste e sussurrou um “tudo bem” logo saindo do quarto com cara de morte. A Agnes ficou lá, tagarelando sobre o Danilo. Ai, meu deus, qual parte do “To indo só porque sou obrigada” era muito difícil de ela entender?
– ... Não, então, mas ano passado ele foi o artilheiro do time de Futebol sabe? Você deveria ver ele jogando... Ele só não é melhor que o Sandro, mas também, o Sandro é o melhor. Em tudo. – Ela me olhou com uma cara de apaixonada enquanto tentava entrar numa calça de couro que deixava a bunda dela maior que a da J.Lo e eu colocava minha calça jeans surrada de sempre. – Aliás, sabe o que o Sandro disse? Que nós estamos pronto pra dar o próximo passo... – Aí eu saltei pra trás, podia parecer terrível, mas era a primeira vez desde que eu nasci que ela me tratava como uma irmã e não como... Bem, como alguém. E isso era legal, quer dizer, e ela estava me contando coisas intimas dela, tipo, ela ia transar. Era um grande passo. – Nossa, sério Aggie? E você já foi num ginecologista, ver se ta tudo bem com vocês dois, quer dizer, ninguém quer pegar AIDS, né? – Aí ela me olhou com uma cara de quem não tava entendendo nada.
Eu fiquei sem graça, minhas bochechas provavelmente ficaram mais vermelhas do que o sutiã completamente vadia que ela estava usando e eu tentei disfarçar, hehe, olhei pro meu guarda–roupa até achar minha camiseta do Libertines, coloquei e olhei pra ela. – Ué, se você vai transar... – Aí ela caiu na gargalhada. E eu queria muito, muito morrer. Muito mesmo. Já disse que eu queria muito? Ah ta.
– Ai, sua besta. Mas isso nós já fizemos, ou você acha que eu vejo filmes no cinema? – Ela pegou uma blusa branca e colocou enquanto falava, depois pegou um batom vermelho e começou a passar no contorno dos lábios. – O próximo passo é, bem, eu acho que ele vai me assumir como namorada mesmo. – Aí eu travei. Como assim? Eles não namoravam? Ele não tinha vindo aqui em casa comer raviolli e falar sobre suas super atuações no time enquanto eu tentava desesperadamente fugir da sala sempre que ele me perguntava qual era meu nome?
– Como assim assumir? Mas vocês já não namoram...? – Fiquei olhando com uma cara de duvida, uma cara de: Ok, certo, minha irmã é uma corna. – Não, na verdade nós só ficamos e bem, ele é livre pra ficar com quem ele quiser, eu também sou... E aquele dia que ele veio conhecer nossos pais, bem, aquele dia foi totalmente uma mentira pra nós podermos transar aqui sabe? – Ai caralho, eles tinham transado no meu quarto? No meu quarto impecavelmente limpo? Levantei da cama com a maior cara de nojo e ela, como sempre, não entendeu o porquê. Ficou me olhando com uma cara de duvida e então se olhou no espelho.
– Ah, calma, eu vou tampar essa espinha com a base. Ela é totalmente horrível, eu sei... – E eu tava lá, parada, com muito nojo de tocar em qualquer coisa daquele quarto novamente. Sério, que nojo supremo. Quero morrer... Ou não. Ou melhor, to querendo muito. Me olhei no espelho e me dei conta de que já estava pronta. – Aggy, eu vou te esperar lá embaixo, ta? – Daí eu comecei a descer as escadas. Tudo ia melhorar no momento em que eu chegasse na sala. Eu tinha certeza disso, mas quando cheguei no pé da escada lá havia uma visita que eu não havia programado. O Gio, tava lá, sentado na sala e do lado dele estavam o Danilo e o Sandro, que sério, estavam ali há quanto tempo? Não importa. O que importa é o Giordano, que tava me olhando de um jeito um pouco... Bem, um pouco assassino.
– Gio! Eu não sabia que você tava aqui, vamos ali fora conversar, vamos... – Eu disse enquanto ia abraçá–lo no sofá. O Danilo me olhou com uma cara. Ah, quem se importa com o que ele pensa no fim das contas? Eu e o Gio saímos de fininho e fomos pro quintal, que era um completo nada cheio de mato e minha mãe gostava de chamar de horta. Enfim.
– Você vai mesmo sair com a sua irmã, o namorado dela e aquele cara idiota do time, Free? – Ele me olhou, claramente desapontado comigo. – Não, sabe o que é? É uma longa história... A Aggy me obrigou e... – E aí ele me parou no meio do discurso de “me desculpe por não sair contigo hoje, mas sabe como é, vou ali dar uns amassos naquele cara do time” – Agora ela é Aggy? Poxa, Freesia, eu achava que você odiava todos eles... Principalmente a sua irmã idiota e depois disso o quê? Você vai entrar pras lideres de torcida e ser rainha do baile? Quando a minha melhor amiga voltar, você me liga... – Ele fez uma cara triste e abriu a porta, prestes a sair e depois me xingar para todos os amigos do AIM dele. – Giordano, você não tá levando isso muito a sério? Eu só vou no cinema... Não é como se eu realmente quisesse algo com ele; ele nem faz meu tipo, eca. – E aí eu percebi a merda que eu tinha feito. Estavam parados no meio da cozinha, além de mim e do Gio: Meu pai, minha mãe, minha irmã, o “namorado” dela e o Danilo. E o ultimo era o pior, ele ficou me olhando com uma cara... Tive certeza de que não ia mais querer sair comigo. Mas essa tinha sido uma idéia ruim desde o principio.
– Ta bom, Freesia. Você sabe o que faz então. – E o Gio andou até a porta e saiu. Eu fiquei ali, com todos me encarando. Uma cara de poucos amigos. – Hihi, sabe como é... Amigos ciumentos, hihi. – Olhei com um desespero pra Agnes, até que ela entendeu e tomou controle da situação. Mas de verdade, eu tava querendo morrer. E muito. O Danilo ainda tava me olhando com aquela expressão indefinida. – Então, vamos gente? Vamos. – Disse a Aggy enquanto puxava todos nós lá pra fora. Sério, meus pais não ligavam pra isso? Eles eram mais inúteis do que eu julguei que fossem minha vida inteira.
Logo quando chegamos lá fora eu tive certeza de que aquela noite não seria boa e que eu me sentiria uma completa estranha no meio deles. Tinha um Porshe amarelo parado ali. Simplesmente isso. Sério, eu to acostumada a andar de bicicleta não de... Bem, não de nada que custe mais de dez mil euros, pra falar a verdade. Acho que o Danilo reparou porque ele sussurrou no meu ouvido. – Legal né? Ganhei dos meus pais semana passada... – Eu tava meio travada ainda porque ele tinha sussurrado,mas respondi. – Wow, super legal. – E aí minha irmã gritou – Gente, adivinha o que eu trouxe? – E nós só estávamos, tipo, na porta de casa. E então ela tirou um pacotinho de maconha do meio dos peitos. Daí o Sandro agarrou ela e eles praticamente transaram ali.
– Nós vamos perder a sessão... – O Danilo disse e eu achei super fofinho, ele queria mesmo ver o filme. Aliás, que filme que era? Não sei, não tinha perguntado e nenhum deles me falava nada. No carro, colocaram um CD de rap e cantaram junto enquanto eu vomitava ali, credo. E quando estávamos quase chegando no centro ele colocou a mão na minha perna e apertou. Ele apertou a minha perna. Eu tinha conhecido o garoto hoje e ele estava colocando a mão na minha perna e apertando? Olhei pra ele com uma cara de ódio supremo e ele logo entendeu. – É. – Me limitei a dizer isso, quer dizer, era tão óbvio. Enquanto isso a Agnes gemia lá atrás.
Coisas completamente horríveis de se fazer numa sexta–feira à noite:
1. Sair com sua irmã, o namorado dela e um cara bonitinho, porém tarado;
2. Brigar com seu melhor amigo por conta disso;
3. Escutar 50cent durante todo o caminho;
4. Escutar sua irmã gemendo durante todo o caminho;
5. O cara bonitinho tentar te beijar assim que vocês chegam no cinema.
Certo, ele tentou me beijar. Simples, fez biquinho e ficou me olhando com aquela cara de idiota. E eu, como sempre, fui o mais grossa possível com ele. – Eu não vou deixar você enfiar a língua na minha garganta, mas se você pretende beijar o ar, continue com isso... – Ele me olhou com uma cara de triste e então segurou na minha mão, eu o olhei com desprezo e aí ele desabou. – Nem segurar a sua mão eu posso? – Tive dó, então assenti. – Tá, mas só isso. – Coloquei muita ênfase no só. Mas ele não entenderia, coisa que eu descobri um pouco depois de entrarmos na sala do cinema.
sexta-feira, 5 de março de 2010
SHE SAID, SHE SAID.
"I know that I'm ready to leave because you're making me feel like I've never been born."
Leia escutando: She Said, She Said, dos Beatles.
Meu dia não havia sido bom, não havia sido e também nunca seria. Eu sabia que daqui a alguns meses me tornaria uma estatística e que ninguém, absolutamente ninguém dessa escola sentiria a minha falta. Quando dessem a noticia, ninguém se abalaria. Na verdade, eles fingiriam, mas logo se dariam conta de que eu não era importante. Era invisível. E os invisíveis, quando morrem, nunca são lembrados.
Freesia, muito prazer. É, eu tenho o nome idiota de uma flor idiota e comum. E acredite, já convivi com isso durante muito tempo da minha vida para ligar. Meu pai, um florista, foi quem o escolheu. Porque era a flor que ele estudava na época. Ah, eu queria ser sortuda como a minha irmã, Agnes. Agnes é um nome tão belo e comum comparado ao meu vômito, digo, nome.
Eu tenho dezoito anos e moro em Roma, na Itália. É claro que pra mim isso não é nada demais, e não faça essa cara de apaixonado. Pois é, eu moro na cidade onde todos encontram o amor e nunca cheguei nem perto disso. Quer dizer, eu tenho um amigo, o Gio, e ele diz que me ama. Mas isso é apenas porque eu sou a única mulher dessa cidade inteira, excluindo sua mãe e sua avó que fala/dá alguma atenção a ele. E sabe como são esses nerds de hoje em dia, se apaixonam por qualquer coisa que dê atenção e seja do sexo feminino. Mesmo que ela seja invisível, depressiva, inútil e se chame Freesia.
Hoje foi um dia comum na escola, com as mesmas pessoas idiotas e as mesmas aulas igualmente idiotas. Tudo corria na sua maior normalidade, se você considera normal ficar gritando para que te vejam na fila da cantina ou que no momento em que está indo embora sua irmã fica se agarrando com aquele jogador de futebol que é namorado dela, mas nunca sabe seu nome. Pois eu considero normal.
Mas então aconteceu uma coisa estranha. E eu já vou começar desse ponto, onde meus planos mudam porque minha vida antes disso era completamente entediante. Pois é, ele apareceu. E, por alguns minutos, eu até julguei que ele fosse comum. Um idiota como todos os outros... Mas ele não era, ele sorriu pra mim. Ele sorriu pra mim. Logo depois disso ele se aproximou da minha irmã e a cumprimentou, depois o namorado dela. E quando eu estava achando que ele era um completo idiota e que eu tinha, de fato, perdido meu tempo sonhando ele me olhou... Ele me olhou e disse – Eu acho que não te conheço, Danilo, muito prazer. E você é? – E sorriu, com todos aqueles dentes perfeitamente alinhados e brancos.
Aí eu derreti.
Ok, talvez eu não tenha derretido, mas eu definitivamente fiquei com uma cara de boba. Com uma cara de: Como assim? Você está falando mesmo comigo? E fiquei com medo de responder, quer dizer, vai que ele está falando com alguém que está do meu lado. Alguém mais invisível que eu, porque eu não via ninguém. Ou com alguém atrás de mim. Ou, pior, será que ele estava zoando com a minha cara? Ah, eu não ia responder, não mesmo. E então a enxerida, isso para não usar uma palavra muito menos educada, da minha irmã se intrometeu na conversa e disse – Essa é a idiota da minha irmã, ela não fala... Coitadinha. – E me abraçou, como se fosse muita caridade falar comigo. Me abraçou. Ela nunca me abraçava, aliás, na maior parte do tempo ela nem falava comigo.
– Me larga, Agnes. Eu sou a Freesia, o prazer é todo meu. – Me limitei a dizer isso, vai que a caridade dele acabe agora. Só sorri e arrumei minha mochila nos ombros, já me preparando pra sair dali porque eu definitivamente não me encaixava naquilo. A menina mais popular da escola e seu namorado completamente idiota juntamente com o amigo dele que apesar de lindo e simpático provavelmente era um completo idiota. E eu, Freesia, aqui. Sobrando. Então peguei minha mochila e lancei aquele olhar de “Te vejo em casa” pra Agnes. Logo me afastando das pessoas, sem nem dar tchau.
É claro que ninguém percebeu, gritou ou se deu ao trabalho de olhar pro lado pra ver se eu tomava o caminho certo. Não. Ninguém se importou comigo, é claro que eu já estava acostumada a isso... A não ser ninguém. Eu nunca fui ninguém e nunca seria. E daqui a exatos sessenta e seis dias eu não seria nada além de uma estatística. Ah, é tão bom quando penso que tudo está perto. Que está finalmente chegando o dia que planejo delicadamente há dois anos.
Quando cheguei em casa, não encontrei nada incomum... Nada muito diferente do que sempre era. Meu pai assistia a um noticiário idiota que todos os dias me convencia que não valia a pena viver e que fazia meu pai balançar a cabeça repetidas vezes, às vezes ele sussurrava “Que absurdo!” Mas nunca fazia nada. Qual é, quem realmente faz alguma coisa? É por isso que a sociedade é uma merda completa.
Minha mãe estava na cozinha tagarelando alguma coisa fútil com alguma de suas amigas no telefone enquanto servia o almoço e gritava com o cachorro por ter entrado em casa no momento errado. Sempre assim, minha mãe tentando ser multifuncional e esquecendo de sua função mais importante... Ser mãe. Logo subi para aquilo que eu chamava de meu quarto e que na verdade era meu quarto com a Agnes. Era uma merda. E olhando pra ele você definitivamente percebia que eu e a minha irmã não tínhamos completamente nada a ver, tirando o sobrenome. Provavelmente nem o mesmo sangue tínhamos.
Em metade do quarto você encontrava discos dos Beatles por toda a parede, um quadro com algumas assinaturas minhas e do Gio e minha coleção de filmes antigos impecavelmente organizada em ordem alfabética. Na metade do quarto que minha irmã ocupava, bem, aquilo era lastimável... Mas haviam alguns posters tirados de revistas dos caras “gostosos” que provavelmente não tinham cérebro nenhum e não se comparavam ao sempre perfeito – e infelizmente morto – James Dean. CDs completamente desprezíveis (Repito, eram CDS e não discos) daquela bandinha inglesa...McDonald, ou algo do tipo. E muitas fotos dela com as amigas, dela com o namorado, dela com a Madonna (Montagem do Photoshop, ou você acha mesmo que a Madonna fosse dar atenção a ela?) e milhões de cartas de garotos apaixonados por ela que ela colava na parede só para acariciar seu ego.
Deitei na minha cama e peguei meu celular na mochila, ele estava apitando há um tempo, mas eu não estava com a mínima vontade de atender aquilo. Sem olhar quem havia me ligado, porque obviamente era o Gio, eu disse com uma voz carregada de tédio – Alô? – E então BANG não era o Gio e sim alguém completamente estranho, alguém que eu não conhecia alguém que... Quem raios era essa pessoa? Tinha ligado errado. – Oi, Boa Tarde... Eu gostaria de falar com a Freesia. – Comigo? Quem gostaria de falar comigo? Ninguém. Ah, eu tava imaginando isso. Daí eu me belisquei, e olha, doeu pra caramba. Acho que não era minha imaginação. – Ela mesma, quem gostaria? – Tentei continuar com meu tom de tédio, mas isso foi impossível. Eu tava curiosa. – Oi, aqui é o Danilo... Eu te conheci hoje à tarde, lembra? – Ele pigarreou – Bem, eu tava pensando se... Você não quer ir num encontro duplo comigo, a Agnes e o Sandro? – Ah, isso era uma piada. Impossível.
– Ah, mas é óbvio que seria muito agradável... Mas sabe como é, to cheia de coisas pra fazer, tipo, lixar as minhas unhas. Coisas muito mais importantes, entende? – Ele riu. Ai, que idiota. Ele riu. Ficou lá, gargalhando enquanto eu olhava pro celular com uma cara de morte. – Você ta bem? – Eu disse, tentando acalmá–lo. – Não... É que, por um momento eu achei que você tivesse recusando. Imagina. Me recusar. Pura bobagem minha, né? – Agora eu achava ele mais idiota ainda, tava até com pena dela. – Na verdade, eu recusei... Se é muito difícil de você entender. – Ai a risada histérica parou e a voz do outro lado mudou pra sempre estridente e irritante voz da minha irmã patética. – Olha aqui, Freesia, você não recusou ele, ok? Nós esqueceremos que você não tem a mínima educação e você vai sair comigo... Não importa se aquele seu amigo completamente idiota quer ter sua atenção a noite inteira, entenda que ele é inútil na tua vida. Agora, eu to indo pra casa e nós vamos nos arrumar juntas pro nosso encontro duplo, entendeu? – Primeiro, como ela conseguia dizer tudo aquilo sem respirar? Caramba, minha irmã era superpoderosa. Segundo, nem ferrando que eu ia sair com um idiota amigo dela, quer dizer, e a minha reputação não existente? Eu preferia deixar as coisas assim. – Nem ferrando, Agnes. E você não pode me obrigar a nada. – Tentei me manter firme, mas eu tava querendo rir daquela situação ridícula. Quer dizer, desde quando ela queria a minha companhia? A minha? Eca, nem eu me queria acompanhando as pessoas. – Eu disse que não aceitava não como resposta, Freesia. Estou subindo as escadas agora e é bom você estar feliz e pronta pra sair. – Tu tu tu tu tu tu tu... E aí a porta abriu. Estavam lá, minha mãe e minha irmã. Merda.
SURRENDER
"I can't help myself, let alone you instead of making love to a memory; I give up, I give…"
Leia escutando: Surrender, Matchbook Romance.
Ninguém me avisou que eu me arrependeria antes de começar a fazer. Ninguém me avisou que durante também. O depois, pois bem, o depois não existiria... Não. Essa era a minha ultima noite por aqui, é difícil quando você aceita que todos os seus planos que você fez eram bobos, mas mesmo assim você os colocou em prática. É doloroso quando você passa a pensar neles e esquece de você.
Eles são os seus pais, e você pode imaginar o que é perder a filha para ela mesma. Suas próprias dores, seus próprios temores. Eu podia imaginar a reação que minha mãe teria quando soubesse da noticia, e mesmo assim me mantive calma. Foram cinqüenta e seis comprimidos no total. Cinqüenta e seis comprimidos, lágrimas e desilusão.
Eu era mesmo uma idiota.
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