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sexta-feira, 5 de março de 2010

SHE SAID, SHE SAID.

"I know that I'm ready to leave because you're making me feel like I've never been born."

Leia escutando: She Said, She Said, dos Beatles.


Meu dia não havia sido bom, não havia sido e também nunca seria. Eu sabia que daqui a alguns meses me tornaria uma estatística e que ninguém, absolutamente ninguém dessa escola sentiria a minha falta. Quando dessem a noticia, ninguém se abalaria. Na verdade, eles fingiriam, mas logo se dariam conta de que eu não era importante. Era invisível. E os invisíveis, quando morrem, nunca são lembrados.

Freesia, muito prazer. É, eu tenho o nome idiota de uma flor idiota e comum. E acredite, já convivi com isso durante muito tempo da minha vida para ligar. Meu pai, um florista, foi quem o escolheu. Porque era a flor que ele estudava na época. Ah, eu queria ser sortuda como a minha irmã, Agnes. Agnes é um nome tão belo e comum comparado ao meu vômito, digo, nome.

Eu tenho dezoito anos e moro em Roma, na Itália. É claro que pra mim isso não é nada demais, e não faça essa cara de apaixonado. Pois é, eu moro na cidade onde todos encontram o amor e nunca cheguei nem perto disso. Quer dizer, eu tenho um amigo, o Gio, e ele diz que me ama. Mas isso é apenas porque eu sou a única mulher dessa cidade inteira, excluindo sua mãe e sua avó que fala/dá alguma atenção a ele. E sabe como são esses nerds de hoje em dia, se apaixonam por qualquer coisa que dê atenção e seja do sexo feminino. Mesmo que ela seja invisível, depressiva, inútil e se chame Freesia.

Hoje foi um dia comum na escola, com as mesmas pessoas idiotas e as mesmas aulas igualmente idiotas. Tudo corria na sua maior normalidade, se você considera normal ficar gritando para que te vejam na fila da cantina ou que no momento em que está indo embora sua irmã fica se agarrando com aquele jogador de futebol que é namorado dela, mas nunca sabe seu nome. Pois eu considero normal.

Mas então aconteceu uma coisa estranha. E eu já vou começar desse ponto, onde meus planos mudam porque minha vida antes disso era completamente entediante. Pois é, ele apareceu. E, por alguns minutos, eu até julguei que ele fosse comum. Um idiota como todos os outros... Mas ele não era, ele sorriu pra mim. Ele sorriu pra mim. Logo depois disso ele se aproximou da minha irmã e a cumprimentou, depois o namorado dela. E quando eu estava achando que ele era um completo idiota e que eu tinha, de fato, perdido meu tempo sonhando ele me olhou... Ele me olhou e disse – Eu acho que não te conheço, Danilo, muito prazer. E você é? – E sorriu, com todos aqueles dentes perfeitamente alinhados e brancos.

Aí eu derreti.

Ok, talvez eu não tenha derretido, mas eu definitivamente fiquei com uma cara de boba. Com uma cara de: Como assim? Você está falando mesmo comigo? E fiquei com medo de responder, quer dizer, vai que ele está falando com alguém que está do meu lado. Alguém mais invisível que eu, porque eu não via ninguém. Ou com alguém atrás de mim. Ou, pior, será que ele estava zoando com a minha cara? Ah, eu não ia responder, não mesmo. E então a enxerida, isso para não usar uma palavra muito menos educada, da minha irmã se intrometeu na conversa e disse – Essa é a idiota da minha irmã, ela não fala... Coitadinha. – E me abraçou, como se fosse muita caridade falar comigo. Me abraçou. Ela nunca me abraçava, aliás, na maior parte do tempo ela nem falava comigo.

– Me larga, Agnes. Eu sou a Freesia, o prazer é todo meu. – Me limitei a dizer isso, vai que a caridade dele acabe agora. Só sorri e arrumei minha mochila nos ombros, já me preparando pra sair dali porque eu definitivamente não me encaixava naquilo. A menina mais popular da escola e seu namorado completamente idiota juntamente com o amigo dele que apesar de lindo e simpático provavelmente era um completo idiota. E eu, Freesia, aqui. Sobrando. Então peguei minha mochila e lancei aquele olhar de “Te vejo em casa” pra Agnes. Logo me afastando das pessoas, sem nem dar tchau.

É claro que ninguém percebeu, gritou ou se deu ao trabalho de olhar pro lado pra ver se eu tomava o caminho certo. Não. Ninguém se importou comigo, é claro que eu já estava acostumada a isso... A não ser ninguém. Eu nunca fui ninguém e nunca seria. E daqui a exatos sessenta e seis dias eu não seria nada além de uma estatística. Ah, é tão bom quando penso que tudo está perto. Que está finalmente chegando o dia que planejo delicadamente há dois anos.

Quando cheguei em casa, não encontrei nada incomum... Nada muito diferente do que sempre era. Meu pai assistia a um noticiário idiota que todos os dias me convencia que não valia a pena viver e que fazia meu pai balançar a cabeça repetidas vezes, às vezes ele sussurrava “Que absurdo!” Mas nunca fazia nada. Qual é, quem realmente faz alguma coisa? É por isso que a sociedade é uma merda completa.

Minha mãe estava na cozinha tagarelando alguma coisa fútil com alguma de suas amigas no telefone enquanto servia o almoço e gritava com o cachorro por ter entrado em casa no momento errado. Sempre assim, minha mãe tentando ser multifuncional e esquecendo de sua função mais importante... Ser mãe. Logo subi para aquilo que eu chamava de meu quarto e que na verdade era meu quarto com a Agnes. Era uma merda. E olhando pra ele você definitivamente percebia que eu e a minha irmã não tínhamos completamente nada a ver, tirando o sobrenome. Provavelmente nem o mesmo sangue tínhamos.

Em metade do quarto você encontrava discos dos Beatles por toda a parede, um quadro com algumas assinaturas minhas e do Gio e minha coleção de filmes antigos impecavelmente organizada em ordem alfabética. Na metade do quarto que minha irmã ocupava, bem, aquilo era lastimável... Mas haviam alguns posters tirados de revistas dos caras “gostosos” que provavelmente não tinham cérebro nenhum e não se comparavam ao sempre perfeito – e infelizmente morto – James Dean. CDs completamente desprezíveis (Repito, eram CDS e não discos) daquela bandinha inglesa...McDonald, ou algo do tipo. E muitas fotos dela com as amigas, dela com o namorado, dela com a Madonna (Montagem do Photoshop, ou você acha mesmo que a Madonna fosse dar atenção a ela?) e milhões de cartas de garotos apaixonados por ela que ela colava na parede só para acariciar seu ego.

Deitei na minha cama e peguei meu celular na mochila, ele estava apitando há um tempo, mas eu não estava com a mínima vontade de atender aquilo. Sem olhar quem havia me ligado, porque obviamente era o Gio, eu disse com uma voz carregada de tédio – Alô? – E então BANG não era o Gio e sim alguém completamente estranho, alguém que eu não conhecia alguém que... Quem raios era essa pessoa? Tinha ligado errado. – Oi, Boa Tarde... Eu gostaria de falar com a Freesia. – Comigo? Quem gostaria de falar comigo? Ninguém. Ah, eu tava imaginando isso. Daí eu me belisquei, e olha, doeu pra caramba. Acho que não era minha imaginação. – Ela mesma, quem gostaria? – Tentei continuar com meu tom de tédio, mas isso foi impossível. Eu tava curiosa. – Oi, aqui é o Danilo... Eu te conheci hoje à tarde, lembra? – Ele pigarreou – Bem, eu tava pensando se... Você não quer ir num encontro duplo comigo, a Agnes e o Sandro? – Ah, isso era uma piada. Impossível.

– Ah, mas é óbvio que seria muito agradável... Mas sabe como é, to cheia de coisas pra fazer, tipo, lixar as minhas unhas. Coisas muito mais importantes, entende? – Ele riu. Ai, que idiota. Ele riu. Ficou lá, gargalhando enquanto eu olhava pro celular com uma cara de morte. – Você ta bem? – Eu disse, tentando acalmá–lo. – Não... É que, por um momento eu achei que você tivesse recusando. Imagina. Me recusar. Pura bobagem minha, né? – Agora eu achava ele mais idiota ainda, tava até com pena dela. – Na verdade, eu recusei... Se é muito difícil de você entender. – Ai a risada histérica parou e a voz do outro lado mudou pra sempre estridente e irritante voz da minha irmã patética. – Olha aqui, Freesia, você não recusou ele, ok? Nós esqueceremos que você não tem a mínima educação e você vai sair comigo... Não importa se aquele seu amigo completamente idiota quer ter sua atenção a noite inteira, entenda que ele é inútil na tua vida. Agora, eu to indo pra casa e nós vamos nos arrumar juntas pro nosso encontro duplo, entendeu? – Primeiro, como ela conseguia dizer tudo aquilo sem respirar? Caramba, minha irmã era superpoderosa. Segundo, nem ferrando que eu ia sair com um idiota amigo dela, quer dizer, e a minha reputação não existente? Eu preferia deixar as coisas assim. – Nem ferrando, Agnes. E você não pode me obrigar a nada. – Tentei me manter firme, mas eu tava querendo rir daquela situação ridícula. Quer dizer, desde quando ela queria a minha companhia? A minha? Eca, nem eu me queria acompanhando as pessoas. – Eu disse que não aceitava não como resposta, Freesia. Estou subindo as escadas agora e é bom você estar feliz e pronta pra sair. – Tu tu tu tu tu tu tu... E aí a porta abriu. Estavam lá, minha mãe e minha irmã. Merda.