quarta-feira, 28 de abril de 2010
VANILLA TWILIGHT.
"And I'll forget the world that I knew, but I swear I won't forget you."
Eu não sabia muito que pensar, ou o que fazer. Ele tinha me assustado, ele tinha matado minhas chances de morrer, ele tinha chorado mais do que é humanamente possível. Isso só nas últimas duas horas. E ainda assim eu quis ir em direção a ele e abraçá-lo. Me sentei do lado dele e o abracei. – Eu não sabia, sinto muito. – Ele encostou a cabeça no meu ombro e nós ficamos ali por muito tempo.
Tempo suficiente para que minha irmã e toda a sua trupe chegassem em casa.
– Merda. Eu não os quero aqui, não quero que eles me vejam... – Eu percebi que por mais fragilizado que ele tivesse, o orgulho ainda era maior do que todo o resto. E decidi que seria certo sair dali. – Vem... – Sussurrei e então entrei no escritório do meu pai, ele me seguiu. Eu tranquei a porta.
Ele sorriu para mim e então disse, bem menos fragilizado do que há cinco minutos atrás. – Você promete pra mim que vai tentar? – Eu não queria tentar e ao mesmo tempo... Queria. É difícil de explicar o que estava passando na minha cabeça naquele momento. Eu não conseguia olhar para ele e perder o ar, como tinha acontecido hoje de manhã. Eu olhava pra ele e vinha um misto de fúria, de culpa. Eu ainda queria ser dele. – Prometo. – Eu disse, ainda sem olhar para ele como antes. – Eu preciso que... Preciso que você me entenda. – Percebi que ele se aproximava enquanto falava, meu corpo todo tremeu. Levantei os olhos e notei que ele estava mais próximo do que eu pensei que estivesse.
– Não faça o que você está pensando em fazer, eu não quero. – Dei as costas para ele e sentei-me no sofá. Sofá esse que tinha sido palco para cenas menos tensas hoje de manhã. Quando que tudo ficou tão complicado? Eu nem me lembrava mais. Ele se sentou do meu lado e então sorriu, um sorriso amarelo daqueles de quem não tem porque sorrir. – Eu não ia fazer nada. – Torci o nariz, numa expressão desconfiada e então me encostei no sofá, me pondo a pensar. Só pra variar um pouco.
Eu não ia mais morrer.
Não que eu tenha me transformado num ser imortal ou algo do tipo, mas eu não ia morrer tão cedo quanto achei que fosse. E isso é um baque. Quer dizer, eu vivo mais sessenta dias e depois não tenho com o que me preocupar... Agora não. Tudo tinha mudado drasticamente, eu ia viver, iam passar os sessenta dias e eu ia estar aqui. Idiota e invisível, mas eu ia estar aqui.
– Eu não sei como viver, Danilo. – Não olhei para ele, apenas fiquei observando a belíssima pintura do teto. – Não tem nada que me faça querer estar aqui. Acabei de gastar todo o meu dinheiro com esses comprimidos, não planejei ir para nenhuma universidade, nem mesmo planejei ir para a formatura. E aí, o que eu faço? Vivo minha vida inútil pensando como seria mais fácil ter morrido? – Continuei sem olhar para ele. Eu ia chorar de novo, só estava me segurando pra que isso demorasse um pouco mais. – É só viver, Freesia. – Ele respirou fundo – Sem pensar. A vida não é feita pra ser planejada, é feita pra ser vivida. E aí que você não se inscreveu pra nenhuma universidade? As inscrições vão até sexta-feira que vem. Você não sabe o que fazer? Testes vocacionais estão aí. – Ele se virou para mim e pegou a minha mão, o que meio que me obrigou a virar para ele. – O problema é que você pensa demais. – Ele sorriu, um sorriso meio torto, meio sem graça. – Uau, você já pensou em escrever livros de auto-ajuda? Acho que ganharia uma grana. – Ele começou a rir e então jogou uma almofada em mim.
Ele começou a se aproximar de mim, eu queria chutá-lo, mas não o fiz. Apenas fiquei parada. Ele estava tão perto... Ele esticou os dedos e passou pelo meu rosto, limpando minhas lágrimas. – Nós estamos bem? – Eu apenas balancei a cabeça em resposta. – Não me chute. – Ele sorriu e então seu hálito de menta logo estava queimando a minha pele, seus lábios começavam a dançar com os meus. Em pouquíssimo tempo o clima ficou... Quente.
E então a Agnes abriu a porta, chorando como se tivesse sido testemunha ocular de um assassinato. Nós dois paramos, ainda que não quiséssemos e então nos sentamos, meio desconfortáveis.
sábado, 24 de abril de 2010
EVERYTHING WE HAD.
"Take the pain out of loving and love won't exist, everything we had is no longer there."
Leia escutando: Everything We Had, The Academy Is...
Por alguns minutos eu realmente achei que ele tinha pirado. Começou a chorar muito, muito mais do que o Draco Malfoy em Harry Potter and The Half-Blood Prince, muito mais do que a Maria Madalena, muito mais do que o Jude Law em Closer. Eu simplesmente não entendia porque ele estava chorando tanto. Me conhecia há três dias. Ia ser fácil agir como se nunca nem tivesse me visto, quer dizer, as pessoas fazem isso o tempo todo. Porque ele não conseguia? – O que você pretende fazer? – Ele disse, em meio a soluços e lágrimas enquanto estava sentado na minha cama, olhando para a caixinha de comprimidos. Eu apenas o olhei, quer dizer, eu ia ter que dizer a verdade no final das contas. – O que você acha que eu pretendo fazer? – Jackass. Mas é claro, isso eu só inclui no pensamento. Aliás, porque ele estava me perguntando tudo isso? Porque ele simplesmente não ia embora? Eu não o queria aqui!
– Eu só... Não consigo entender, porque? – Então ele levantou os olhos e me encarou. Eu estava parada na frente dele. Os olhos verdes dele estavam cheios de lágrimas, cheios de decepção, de duvida. Eu não conseguia ser tão fria, não mesmo. Então eu comecei a chorar. Não é que eu quisesse isso, mas de um momento pro outro eu virei um chafariz. Depois me joguei nos braços dele e o abracei. Ele me abraçou de volta. – Você nunca ia me entender... Por isso eu preciso que vá embora, eu não posso me apegar mais a você... – Minha voz saiu esganiçada. Eu estava com a cabeça deitada no ombro dele, o perfume dele era bom. Merda, eu não queria pensar em perfumes agora.
– Eu posso tentar entender... – Ele disse enquanto me tirava de cima dele, (mesmo que eu não quisesse isso) e então eu me sentei no chão. Não tinha forças pra me levantar, eu ia gastá-las agora, contando tudo. Porque por mais idiota que fosse, eu não ia conseguir deixá-lo sem uma resposta. – Certo... – Eu desviei o olhar para o chão e fiquei movimentando meus dedos lentamente como se fossem bonequinhos. Eu parecia uma autista. Ótimo, agora eu era uma autista suicida. – Eu não sei se você já percebeu, mas eu não sou uma pessoa cheia de amigos – Não esperei a confirmação, apenas continuei. – Meu único amigo era o Giordano, não que ele queira falar comigo agora... – Dei uma risadinha ridícula – Minha irmã é a pessoa mais popular da escola, os professores não sabem meu nome, meus pais constantemente esquecem da minha existência. Todos os dias na hora da saída eu fico esperando a Agnes para vir embora. – Parei um pouco, eu não conseguiria terminar isso sem cair em lágrimas de novo. Eu revia as cenas na minha cabeça e simplesmente... Era tão terrível. – Eu faço isso desde que nós tínhamos nove anos, sabe? E até três dias atrás ninguém ali tinha sequer olhado pra mim... Eu sou invisível, Danilo. E por mais que você me diga que não sou, eu sou... – Aí as lágrimas caíram como nas cataratas do Iguaçu. – E eu não posso mais continuar assim! Eu não agüento mais a minha vida! E ela nunca vai mudar, nunca! – As ultimas palavras não eram possíveis de entender, mas eu não ia repeti-las... Apenas continuei observando o chão.
Tudo o que aconteceu depois foi inútil. Um completo silencio devastador. Eu precisava que ele falasse alguma coisa, simplesmente precisava. Mas ele ficou uns vinte minutos calado. E eu fiquei ali, olhando pro chão. Odiava aquele silencio, alguém precisava dizer alguma coisa. Nem que fosse a coisa mais idiota do mundo. E eu era a pessoa mais indicada para tal ato, afinal, era a minha especialidade. – Eu disse que você não ia entender... – Desviei os olhos para ele. Ele segurava o vidrinho de remédios com fúria. Eu via fúria em seus olhos... Eu via, preocupação. Eu não esperava que ele se preocupasse, eu simplesmente esperava que ele dissesse “Ah, ta bom então, tchau” E fosse embora.
– Eu entendo. – A voz dele saiu fria. E então ele olhou no relógio. Ótimo, ele não agüentaria ficar mais nem um minuto aqui. – Mas você não pode fazer isso... – Eu apenas o olhei. Como assim eu não podia? Eu podia e eu ia! Quem era ele pra me dizer o que eu podia fazer? Nem o meu pai fazia isso. – Porque... Porque isso pode mudar! Se você não quer ser invisível é só se impor mais... Você é uma pessoa maravilhosa e consegue fazer isso sozinha, não precisa se matar. Não precisa morrer porque sua vida foi triste, porque você nem tentou fazer com que isso mudasse! Você está conformada com isso! – As palavras jorravam da boca dele. E ele me olhava, seus olhos brilhavam, ele queria que eu aceitasse isso, mas eu não ia. Eu não podia. Isso não fazia o menor sentido.
– Está vendo como você não entende? – Eu me levantei enquanto ia em direção à janela, abrindo-a novamente. Já era tarde, não haviam carros na rua, não haviam pessoas na rua. Não havia nada além da escuridão. – Pare de olhar pelo seu ponto de vista! Porque as pessoas fazem isso? Ninguém foi Freesia di Bianchi. Ninguém sabe como é! E não dá pra mudar! E eu não vou me apoiar em você pra mudar, sabe? – Não olhei para ele e tudo ficou em silêncio por uns dois ou três minutos, até que eu me cansei e me virei.
Ele não estava mais lá, nem os meus comprimidos.
Eu não sou nenhuma estúpida, não sou uma pessoa sem coração e sim, eu me importo com as pessoas, por mais incrível que isso possa parecer. Mas, porque exatamente ele ficou tão transtornado? Aliás, porque exatamente ele decidiu levar meus comprimidos com ele? Eu gostava... Gosto do Danilo, adoro a risada dele e a habilidade suprema que ele tem de me fazer rir falando idiotices, gosto da companhia dele e do beijo dele, mas eu não o amo. E se ele me amava, se era isso que ele achava que sentia, ele nunca tinha amado realmente. Não que eu tivesse, mas isso que nós estamos tendo... Isso é o inicio de uma relação, apenas, pode haver paixão, tesão, amizade, mas não amor. É claro, ele podia dizer “Não se mate! Vou chamar seus pais e você vai se foder!” Mas fugir com os meus comprimidos, fazer um discurso motivacional para mim? Isso não é comum.
Saí correndo atrás dele, ele não podia estar muito longe, até porque eu havia trancado as portas. Aí eu escutei o barulho da descarga. E pirei, quer dizer, quem ele achava que era? Corri um pouco mais e o encontrei na porta do W.C. com a maior cara de vitorioso. As covinhas não eram mais tão fofas, os olhos verdes não me seduziam mais, nem mesmo o leve bronzeado ou a lembrança da pele macia. Eu estava furiosa.
– Qual é o seu problema, garoto? – O fuzilei e o sorriso idiota não saia do rosto dele. – O meu problema, Freesia? Nenhum, eu acabei de te salvar. – Ele disse tão calmo que eu quase acreditei. – Me salvar de quê, exatamente, Danilo? Das minhas decisões? Repito, minhas decisões e de mais ninguém. – Dei um passo para frente. Ele riu. – Acabei de te impedir de tomar uma decisão idiota por razões idiotas. Sabe porque você quer se matar? Pelo que você acha que as pessoas acham, porque você acha que é sozinha. Você acha demais. Quem se importa com o fato da sua irmã ser popular? – Ele quase gritou. – Ela também é uma puta, com o perdão da expressão. – Ele deu um passo à frente. – Você acha que é a ovelha negra da família? Pois você não é! As pessoas sabem sim quem você é, e sempre dizem “Ainda bem que ela não é como a irmã” – Eu dei um passo para trás, algo nele estava me assustando. Talvez o fato de ele estar certo. – Sabe porque eu saí contigo? – Ele deu dois passos à frente, estava incrivelmente próximo de mim. – Porque eu te achei gostosa e achei que seria fácil como a Agnes foi. – Ele começou a rir sozinho.
Um riso desesperado.
– Mas eu não sou. E nunca serei, se é isso que você está esperando, pode sair. – Ele continuou parado. – Eu ainda não terminei de falar, Freesia. Você queria saber qual é o meu problema? Eu te digo. – Ele saiu andando em direção ao W.C., de novo. Eu continuei parada. – O meu problema é que você não foi fácil! O meu problema é que você é você e que é a primeira vez em alguns anos que eu penso que eu tenho futuro com alguém. – Ele encostou na parede e olhou para mim, com os olhos marejados, de novo. – Minha ex-namorada se matou. – Mais lágrimas caíram de seus olhos.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
CHANGE YOUR MIND.
"And I said if the answer is no, can I change your mind?"
Leia escutando: Change Your Mind, The Killers.
Demorei quase duas horas pra chegar em casa. Porque as pessoas vão ao banco num sábado à noite? É só isso que eu gostaria de saber, quer dizer, eu só fui por motivos maiores... Não porque eu gosto. Agora a galera, não, sério, alguns até mesmo se conheciam! Deviam fazer uma reunião semanal de freqüentadores de bancos. Desci do carro sem dizer tchau a Alicia. Aliás, ela não estava com aparência de quem ligaria se eu exercesse o mínimo da minha educação ou não. E nem eu.
Havia um peso em minhas mãos... O da minha vida.
Andei rapidamente até a porta, a destranquei e encontrei a sala completamente bagunçada como estava quando saímos. Eu não ia arrumar. Meus pais não ligariam, eles nunca ligavam. Eu precisava mesmo era pensar. Subi até o meu quarto – tecnicamente meu e da Agnes, mas quem liga? – e quando abri a porta tive a maior surpresa que eu poderia ter.
Certo, como ele podia ser tão insistente? Mesmo com os olhos verdes inchados do que eu esperava ser da maconha que ele fumou, ainda continuava gato. A pele continuava no mesmo tom levemente bronzeado, o corpo continuava definido, o sorriso continuava branco e a voz continuava irresistível. É claro que isso não mudava nada... Eu simplesmente não queria falar com ele! – Eu pensei que tivesse dito pra você sumir daqui. – Eu disse, categórica enquanto jogava minhas coisas na cama. É claro que joguei minha blusa por cima do potinho de comprimidos, não queria que ele soubesse de nada.
– Eu só quero entender porque, Freesia – Ele começou a chorar. Olha, eu sou a pessoa mais antidrogas que eu conheço, mas a minha vida seria muito mais fácil se ele estivesse completamente chapado. Só. – Foi algo que eu fiz? O que foi? Eu posso concertar, mudar... Tudo parecia estar tão bem... – Procurei frieza em todo o meu ser, quando, na verdade eu queria me jogar nos braços dele e dizer que eu tinha sido uma idiota. Mas é claro, eu não podia. – As aparências enganam. Agora, por favor, vai embora. – Estava me segurando pra não chorar. Já não bastava aquela cara vermelha e inchada dele e a minha, que estava se recuperando. Eu simplesmente não podia chorar... Se eu chorasse ele saberia que havia algo errado. E oi, ele não pode saber porque:
a) Não é muito legal escutar que uma pessoa está querendo se matar;
b) Ele ia querer me fazer mudar de idéia, igual a todas as outras pessoas. E é como eu sempre digo, eles não vivem como eu vivo e não sabem o que eu passo/passei.
– Não, Freesia, não enganam – Ele levantou e veio em minha direção, provavelmente me abraçaria. Mas eu lancei um olhar tão mortal que até o Darth Vader sairia correndo e pedindo ajuda para a mamãe. – Eu só queria saber... – Ele foi dando passos para trás até que sentasse na cama (cheia de espermatozóides mortos) da minha irmã e então continuou falando – ... O que você estava fazendo no carro daquela traficante? – E me encarou com os olhos mais verdes, lindos e decepcionados do mundo. Alguém arranja um buraco? Porque eu quero cair nele.
– Traficante? – Fiz a maior cara de quem não sabia de nada, é claro, ou ele esperava que eu falasse “Ah, sabe como é... To precisando me matar e ela conseguiu uns comprimidos, by the way, é por isso que estou te dando um pé na bunda. Beijinhos” Claro que não e se esperava, bem, ele não ia ter a resposta que queria. Obviamente. – Do que você ta falando? – O encarei com a maior cara de decidida que eu consegui, mas é claro, ela não era muito boa.
Porque ele tinha que complicar tudo? Aliás, porque ele tinha aparecido na minha vida? Não era pra ser assim... Não mesmo. – A Alicia. E não faça essa cara de quem não sabe de nada, você acha que nós compramos drogas com quem? – Ele estreitou os olhos e ficou me encarando por alguns segundos. Mas eu não respondi. Não podia. Tinha sido pega na mentira e agora tinha que encarar as conseqüências. Fiquei apenas parada enquanto ele levantou, trancou a porta do quarto e fechou a janela, em seguida, fechou a cortina. Ótimo, agora ele acha que eu uso drogas e vai me estuprar. – O– o– quê você ta fazendo? – Gaguejei quando ele veio em direção a mim. Eu tinha certeza, ele ia me estuprar.
Acho que esse é o castigo que ele encontrou pra me dar. Sério, cadê a criatividade desses jovens de hoje em dia?
Mas não. Ele não me atacou na parede, não me chamou de lagartixa. Infelizmente, quer dizer, claro que isso ia contra as minhas convicções, mas o que ele fez depois foi pior. No ultimo segundo desviou até minha cama e então levantou a minha jaqueta.
Fez a maior cara de assustado quando viu a caixa de comprimidos. Ué, ele esperava o quê? Uma seringa com heroína prontinha pra ser usada?
É, acho que sim.
sábado, 17 de abril de 2010
I'M YOUR VILLAIN
"I know what I am and I'm your villain, oh, no, I don't give a damn if I'm your villain."
Leia escutando: I'm Your Villain, Franz Ferdinand.
– Quase não acreditei quando te vi na rua, achei que você não saísse – Ela me lançou um olhar penetrante. – É, algumas coisas mudaram. – Sorri nervosamente. E então ela segurou o meu braço e me arrastou para dentro de seu carro. Não é que eu não gostasse, afinal, não estava muito a fim de gastar mais ainda a sola dos meus sapatos. Mas eu não queria estar no carro dela, aliás, nesse momento, a última pessoa com que eu gostaria de falar é Alicia Fontinelli.
Sete coisas que você precisa saber sobre Alicia Fontinelli
1. Ela é uma aluna da faculdade;
2. Vende drogas apenas para pagar o absurdo valor da faculdade de medicina;
3. É a pessoa mais assustadora que você vai conhecer, porque ela é a personificação do demônio.
4. Eu devo algum dinheiro a ela, afinal, conseguir os comprimidos que eu preciso não é uma tarefa fácil;
5. Ela acha completamente repugnante a idéia de eu querer me matar;
6. Eu acho repugnante a idéia de ela julgar alguma coisa. Se eu fosse ela e tivesse pernas imensas também acharia a vida bem fácil;
7. Ela é amante do meu pai.
É claro, ela queria falar sobre negócios. Eu estava devendo mais de setecentos euros para ela, mas simplesmente não podia pagar ainda. Eu tinha um plano, alguns dias antes de morrer eu tiraria o dinheiro da minha poupança e transferiria para a conta dela. Depois, deixaria o resto do dinheiro para que minha irmã possa pagar uma faculdade suficientemente boa, afinal, ela gastou a poupança toda em roupas da DOLCE&GABANNA no ano passado. O que foi uma tremenda idiotice, afinal, as roupas já são de coleção anterior. – Eu consegui seus comprimidos, preciso do dinheiro – A voz dela era séria, profissional e ela não deixava que nenhuma emoção passasse. Mas claro, eu sabia que ela estava muito feliz por estar matando a filha de seu “namorado”. Aí minha mãe entraria em depressão e ele a largaria para ficar com ela.
Claro, isso no mundo rosa e cheio de flores dela. Porque eu era a filha odiada, a ovelha negra. Eles simplesmente não perceberiam que eu fui embora. É triste, mas é a verdade. – Você sabe que eu só posso transferir o dinheiro daqui a algum tempo, está no nosso trato, lembra? – Relembrei a ela do “contrato” que nós tínhamos e que ela simplesmente fingia esquecer todas as vezes que me via. – Freesia, eu preciso do dinheiro agora! – Seus olhos estavam furiosos e eu me afastei um pouco dela no banco do porshe vermelho. Ela havia estacionado numa ruazinha vazia onde só moravam imigrantes ilegais e judeus. – Alicia, nós combinamos algo diferente, não se lembra? – Me mantive firme. Firme demais para alguém que estava morrendo de medo.
– Eu preci... – A voz dela saiu abafada pelas buzinas de um porshe amarelo que havia parado atrás. O Danilo saiu de lá, estava nervoso e já ia brigar com a idiota que estava fechando o caminho quando me viu. – Freesia? Eu estava procurando por você. – Eu olhei para ele e não consegui evitar, as lágrimas começaram a escorrer. Eu não queria ser rude, não queria que acabasse assim. Mas eu preferia que ele me odiasse, simplesmente assim. – Eu estava fugindo de você! Eu não quero mais falar contigo! Nunca mais! – Eu disse, fechando o vidro do carro rapidamente e então olhando para Alicia. – Você me leva até um banco e eu te dou o seu dinheiro. – Legal. Agora eu ia falir antes mesmo de morrer.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
SKEPTICS AND TRUE BELIEVERS
"So you're selfish, and I'm sorry when I'm gone you'll be going nowhere fast."
Leia escutando: Skeptics And True Believers, The Academy Is...
Fiquei sozinha durante o jogo inteiro. Não entendi nada. E eu juro que tentei, até gritei um pouco quando toda a arquibancada fez o mesmo. Mas é claro, ainda me sentia deslocada. Todas as vezes que olhava pro lado me perguntava porque estava ali. Claro, era pelo Danilo. E pelo modo como a minha vida havia mudado estranhamente nos últimos três dias... Mas mesmo assim, não fazia sentido.
Eu era Freesia di Bianchi. Provavelmente a garota mais solitária do meu colégio. A suicida em potencial. Aquela que só tinha um amigo. Irmã de Agnes di Bianchi, a garota mais popular de toda a escola. Eu era inteligente, mas não o suficiente para ser considerada uma nerd. Eu era legal, mas não o suficiente para ter muitos amigos. Eu era bonita, mas não o suficiente para que alguém – Além do meu melhor amigo – gostasse de mim. Eu era solitária. E eu realmente não deveria estar aqui. Isso era um erro, os últimos dias haviam sido errados.
Não fazia parte do ciclo natural das coisas, até porque, no circulo natural eu morria. E isso ia acontecer, sabe? Eu ia morrer. E queria continuar invisível como sempre fui, não quero que as pessoas reparem em mim ou que percebam que eu estive aqui em algum momento. Talvez eu seja egoísta, mas antes eu não ligava pro fato de elas sofrerem. Porque elas não iam. Mas agora, agora eu não sei mais. As pessoas pareciam interessadas e provavelmente, quando eu voltasse à escola, todos se interessariam. Afinal, eu estava meio que namorando um dos jogadores de Futebol e isso era grande. Isso era grande demais para Freesia di Bianchi.
Me levantei do banco da arquibancada. Tudo era um erro, eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar com em casa, falando mal das pessoas no telefone, escutando meus discos, vendo meus filmes. Não deveria ter saído de casa num porshe amarelo, não deveria ter beijado o Danilo, não devia ter sido legal com a minha irmã. O que eu estava pensando quando deixei isso acontecer?
Os garotos estavam no vestiário. O jogo havia acabado. Minha irmã estava se agarrando com a Laura enquanto milhões de pessoas ficavam à sua volta e tiravam fotos com o celular. E eu? Bom, eu estava com os olhos encharcados de tanto chorar e atravessando o campo em direção à saída.
Como eu ia para casa? Não faço a menor idéia, afinal, eu não dirijo. O Giordano dirige, mas duvido que ele queira falar comigo agora. E eu não ia ligar para os meus pais. Não mesmo. Até porque eles não estavam em casa.
Por isso eu fui a pé.
Certo, digamos que eu estou acostumada a ir a pé para casa todos os dias. É longe, eu sei. Mas eu vou. Simplesmente vou quase todos os dias, com exceção dos dias em que o Gio pode me levar. Só que agora parecia tão mais difícil. Porque eu era idiota o suficiente pra deixar que minha vida virasse essa confusão? Eu estava simplesmente iludida e é ridículo pensar que eu realmente cogitei a idéia de abandonar as minhas convecções, tudo por culpa de um garoto idiota. Lindo, mas idiota. E que beijava bem, mas ainda assim, idiota.
Então eu escutei uma buzina. Uma buzina violenta que eu infelizmente reconheci. Não queria ter reconhecido, não mesmo. Era a buzina de um porshe. E então eu me virei, com o discurso que eu havia pensando nas ultimas horas completamente decorado, eu estava tão pronta pra falar. Cheguei até mesmo a abrir a boca.
Mas não era um porshe amarelo.
Era um porshe vermelho, e nele, não estavam as pessoas desprezíveis da minha escola. Ali estava Alicia Fontinelli. Com suas grandes e bronzeadas pernas, seu cabelo louro e seu sorriso completamente branco. Ela parou o carro no meio da rua – sim, literalmente no meio da rua – e abriu a porta. Vestia algo que ela chamaria de vestido e eu de camisola, mas era azul. Um azul tão intenso quanto seus olhos. Então ela disse – Nós temos que conversar. – E eu assenti, afinal, como você pode dizer que não quer falar com a traficante que está conseguindo seus comprimidos?
quinta-feira, 1 de abril de 2010
HOW GOOD IT CAN BE.
"And it's hollow and greased and it says that you're dead but you make fun and tease and the things that you said."
Leia ouvindo: How Good It Can Be, The 88.
Não demorou muito pra que eu me arrumasse, até porque, eu nunca fui de me preocupar em agradar as pessoas com que eu estava vestindo... Mesmo que essa pessoa fosse o Danilo. Nunca, e se ontem ele não reclamou da minha roupa, a diferença é que hoje eu usava uma camiseta dos “playmobeatles” e não uma do Libertines. E claro, usava outra calça jeans, mas ainda sim era jeans. Então eu não demorei pra me arrumar, mas fiquei um bom tempo sentada na cama pensando em como eu colocaria em prática o meu plano de ontem. Não podia ser hoje, eu não sou egoísta a esse ponto, quer dizer, é o grande jogo dele. Então amanhã eu faria isso.
Fechei os olhos e fechei minhas mãos num punho, fiquei assim por uns cinco minutos, até que tomei coragem e levantei. Saí do quarto, apaguei a luz e comecei a descer as escadas... Aterrorizada. Ninguém odiava mais aqueles ogros do que eu, não mesmo. Cheguei ao pé da escada e lá estava a Agnes, juntamente com suas três amigas, cantando em cima da mesa e quase ficando nuas enquanto os garotos babavam. Todos, menos o Sandro, que aparentemente não estava lá. Ou tinha ido pro banheiro, sabe como é, liberar.
– Err, oi. – Eu não tinha reparado que o Danilo não estava no meio dos rapazes, na verdade, eu já estava bem puta com isso. Mas aí ele surgiu do escritório do meu pai e disse – Vem cá, antes que seja contaminada por eles – Evitei rir e entrei lá como se fosse a coisa mais normal do mundo entrar num quarto com um garoto bonito daquele jeito. Bom, pra mim não era, mas não posso responder pelo resto das meninas e/ou meninos que gritavam como animais no cio na sala.
Quando entrei no escritório do meu pai, fiquei meio felizinha, achei que fosse dar uns amassos no Danilo. Coisa que eu tinha decidido que era completamente aceitável, considerando que eu daria um pé na bunda dele daqui a um tempo, ou melhor, daqui a dois dias. Mas ai minha alegria se esvaiu. O Sandro estava num cantinho chorando igual a um bebê e o Danilo – do jeito mais fofo do mundo – estava tentando acalmá–lo. Daí ele olhou pra mim e disse – Sério, nós precisamos de uma opinião feminina...– Eu fiz uma cara de “quê” e fiquei pensando em porque raios eles queriam a minha opinião, até porque, feminina é uma coisa que eu não sou, muito. – Hm, pode falar... – A insegurança na minha voz era clara.
– Sua irmã terminou comigo, Freesia. Sabe porque? Porque ela e a Laura decidiram brincar juntas e gostaram – Ele levantou e deu um soco na parede – Que humilhação, fui trocado por uma garota... E agora elas estão se agarrando lá na sala. E todos sabem que eu sou um corno. – Não sei por qual motivo eu fiquei tão assustada, se era a primeira vez que o Sandro falava uma frase com mais de cinco palavras, se era porque ele tinha acertado meu nome ou se era porque minha irmã era lésbica. Não sei porque, mas eu tive que sentar.
– Minha irmã é lésbica? – Me limitei a dizer isso e então o Sandro me olhou com uma cara de que ia me matar e me deixou assustada mais uma vez, na verdade, fez algo que eu nunca imaginaria... Ele foi irônico. – Não, Free, imagina... Ela e a Laura estavam brincando de bonecas e decidiram que preferem fazer isso do que transar comigo. É óbvio que ela virou lésbica! – E aí eu fiquei ali, parada, com muito medo da minha irmã curtir incestos também e já me preparando pra trocar de quarto, estava fazendo todos os planos na minha cabeça quando notei o Danilo sentando atrás de mim e dizendo – Na verdade, nós queremos saber o que ele pode fazer pra reconquistá–la...
Continuei com a maior cara de cu até que decidi que havia um jeito – Você podia assumir ela como namorada, sabe, apresentar pros teus pais... Dar uma aliança, essas coisas. – Respirei fundo – Ou então faz uma cirurgia de troca de sexo. – E aí o Sandro me fuzilou como se eu tivesse dizendo a coisa mais absurda do mundo, depois fez umas caretas e se levantou tão rapidamente quanto o papa–léguas. – Vou comprar flores, alianças, chocolates e... Contratar uma banda. Tchau, obrigado Freesia.
– Não há de quê – E ele se foi, todo veloz, enquanto eu me virava pra olhar o Danilo que estava com uma cara de preocupado. – Essa coisa de ser lésbica, não é hereditária, certo? – Ele me olhou assustado e eu não pude evitar, quer dizer, eu nunca me imaginei com uma mulher e nem mesmo senti tesão ao ver uma nua – E acredite, meu melhor amigo é nerd, eu bem já vi. – Também nunca quis aparecer pros meus pais, já me acostumei ao fato de eles não me notarem e eu teria gritado um “NÃO!” Tão sonoro pra ele se não fosse aquela cara de assustado que deixava uma brecha tão grande... – Na verdade, eu estava olhando a Christie agora e... Que bundinha não? – Eu sorri e então passei a língua no contorno dos lábios. Ele continuou assustado e então nós caímos na gargalhada. – Você é uma péssima lésbica, sabia? – Eu olhei pra ele e ri, não respondi nada, meu riso era como um sim. Pelo menos eu achei que fosse.
Coisas completamente legais de se fazer num sábado de manhã:
1. Ser acordada pelo amigo tarado da sua irmã que se mostrou perfeito e não tarado;
2. Descobrir que sua irmã é lésbica e cair na gargalhada;
3. Se assumir lésbica pro cara completamente perfeito e ele achar engraçado;
4. Logo depois de rirem juntos como hienas ele se aproximar de você;
5. Beijá–lo durante muito tempo e ficar na duvida sobre o porque demorou tanto pra fazê–lo.
Estávamos ali nos beijando há pelo menos uns dez minutos. É claro que nós parávamos pra respirar, ninguém aqui é o Edward Cullen, mas tirando as paradinhas pra breves momentos de ar puro, eu deixei ele enfiar a língua na minha garganta e garanto, é muito bom. Então estávamos lá, a mão dele passando pelo meu corpo e eu sem saber o que fazer com as minhas próprias mãos quando minha irmã abriu a porta e ficou lá, parada. Só depois de alguns segundos ela voltou à vida e disse – O jogo começa daqui ha uma hora, vamos? – Aí o Danilo levantou, olhou pra ela e disse que nós já estávamos indo. Antes de sair a Agnes lançou uma piscadela idiota pra mim e eu fiquei na duvida se era um “muito bem” ou se era um “sou lésbica e curto incestos, vem cá” mas achei melhor não ficar pensando muito nisso.
Eu estava completamente vermelha, parecia um tomatão, mas achei melhor não comentar. Quer dizer, era visível e eu podia guardar minhas angustias sobre meu dom de ficar tão vermelha em tão pouco tempo pra mim mesma. Ele me abraçou e ninguém disse nada, ficamos num completo silencio até que saímos do escritório do meu pai e o resto das pessoas estavam lá, gritando como loucas.
No carro dele fomos apenas nós dois, ele pediu pra que eu conectasse o meu iPod ali e nós fomos escutando Beatles o caminho inteiro, ele até curtiu Twist and Shout, mas fez uma cara completamente estranha quando começou a tocar Strawberry Fields Forever. Eu fiquei meio puta com isso porque eu gosto da musica, mas gostos não se discutem. Depois ele foi passando as musicas até Something, disse que gostou da letra. Pelo menos isso, pff. Uma das musicas mais lindas do mundo.
– Na volta, nós vamos escutar as minhas musicas. – Eu assenti, com um pouco de medo, quer dizer, essas musicas que ele escutava eram tão... 50cent, sabe? Mas já que ele havia escutado as minhas, bem, eu não podia reclamar muito. Saímos do carro e eu me sentia bem, mesmo que estivesse num ambiente diferente do que eu costumo estar. Que soubesse que estava sobrando ali, bem, eu me sentia bem.
Não demorou muito para que esse sentimento passasse, nós entramos no campo e eu me vi completamente sozinha. A Agnes e suas seguidoras foram se aquecer; O Danilo e os trogloditas foram pro vestiário. E o Sandro, bom, sabe–se lá onde ele estava a essa altura. E eu fiquei só.
Aí me senti completamente deslocada.
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