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sábado, 24 de abril de 2010
EVERYTHING WE HAD.
"Take the pain out of loving and love won't exist, everything we had is no longer there."
Leia escutando: Everything We Had, The Academy Is...
Por alguns minutos eu realmente achei que ele tinha pirado. Começou a chorar muito, muito mais do que o Draco Malfoy em Harry Potter and The Half-Blood Prince, muito mais do que a Maria Madalena, muito mais do que o Jude Law em Closer. Eu simplesmente não entendia porque ele estava chorando tanto. Me conhecia há três dias. Ia ser fácil agir como se nunca nem tivesse me visto, quer dizer, as pessoas fazem isso o tempo todo. Porque ele não conseguia? – O que você pretende fazer? – Ele disse, em meio a soluços e lágrimas enquanto estava sentado na minha cama, olhando para a caixinha de comprimidos. Eu apenas o olhei, quer dizer, eu ia ter que dizer a verdade no final das contas. – O que você acha que eu pretendo fazer? – Jackass. Mas é claro, isso eu só inclui no pensamento. Aliás, porque ele estava me perguntando tudo isso? Porque ele simplesmente não ia embora? Eu não o queria aqui!
– Eu só... Não consigo entender, porque? – Então ele levantou os olhos e me encarou. Eu estava parada na frente dele. Os olhos verdes dele estavam cheios de lágrimas, cheios de decepção, de duvida. Eu não conseguia ser tão fria, não mesmo. Então eu comecei a chorar. Não é que eu quisesse isso, mas de um momento pro outro eu virei um chafariz. Depois me joguei nos braços dele e o abracei. Ele me abraçou de volta. – Você nunca ia me entender... Por isso eu preciso que vá embora, eu não posso me apegar mais a você... – Minha voz saiu esganiçada. Eu estava com a cabeça deitada no ombro dele, o perfume dele era bom. Merda, eu não queria pensar em perfumes agora.
– Eu posso tentar entender... – Ele disse enquanto me tirava de cima dele, (mesmo que eu não quisesse isso) e então eu me sentei no chão. Não tinha forças pra me levantar, eu ia gastá-las agora, contando tudo. Porque por mais idiota que fosse, eu não ia conseguir deixá-lo sem uma resposta. – Certo... – Eu desviei o olhar para o chão e fiquei movimentando meus dedos lentamente como se fossem bonequinhos. Eu parecia uma autista. Ótimo, agora eu era uma autista suicida. – Eu não sei se você já percebeu, mas eu não sou uma pessoa cheia de amigos – Não esperei a confirmação, apenas continuei. – Meu único amigo era o Giordano, não que ele queira falar comigo agora... – Dei uma risadinha ridícula – Minha irmã é a pessoa mais popular da escola, os professores não sabem meu nome, meus pais constantemente esquecem da minha existência. Todos os dias na hora da saída eu fico esperando a Agnes para vir embora. – Parei um pouco, eu não conseguiria terminar isso sem cair em lágrimas de novo. Eu revia as cenas na minha cabeça e simplesmente... Era tão terrível. – Eu faço isso desde que nós tínhamos nove anos, sabe? E até três dias atrás ninguém ali tinha sequer olhado pra mim... Eu sou invisível, Danilo. E por mais que você me diga que não sou, eu sou... – Aí as lágrimas caíram como nas cataratas do Iguaçu. – E eu não posso mais continuar assim! Eu não agüento mais a minha vida! E ela nunca vai mudar, nunca! – As ultimas palavras não eram possíveis de entender, mas eu não ia repeti-las... Apenas continuei observando o chão.
Tudo o que aconteceu depois foi inútil. Um completo silencio devastador. Eu precisava que ele falasse alguma coisa, simplesmente precisava. Mas ele ficou uns vinte minutos calado. E eu fiquei ali, olhando pro chão. Odiava aquele silencio, alguém precisava dizer alguma coisa. Nem que fosse a coisa mais idiota do mundo. E eu era a pessoa mais indicada para tal ato, afinal, era a minha especialidade. – Eu disse que você não ia entender... – Desviei os olhos para ele. Ele segurava o vidrinho de remédios com fúria. Eu via fúria em seus olhos... Eu via, preocupação. Eu não esperava que ele se preocupasse, eu simplesmente esperava que ele dissesse “Ah, ta bom então, tchau” E fosse embora.
– Eu entendo. – A voz dele saiu fria. E então ele olhou no relógio. Ótimo, ele não agüentaria ficar mais nem um minuto aqui. – Mas você não pode fazer isso... – Eu apenas o olhei. Como assim eu não podia? Eu podia e eu ia! Quem era ele pra me dizer o que eu podia fazer? Nem o meu pai fazia isso. – Porque... Porque isso pode mudar! Se você não quer ser invisível é só se impor mais... Você é uma pessoa maravilhosa e consegue fazer isso sozinha, não precisa se matar. Não precisa morrer porque sua vida foi triste, porque você nem tentou fazer com que isso mudasse! Você está conformada com isso! – As palavras jorravam da boca dele. E ele me olhava, seus olhos brilhavam, ele queria que eu aceitasse isso, mas eu não ia. Eu não podia. Isso não fazia o menor sentido.
– Está vendo como você não entende? – Eu me levantei enquanto ia em direção à janela, abrindo-a novamente. Já era tarde, não haviam carros na rua, não haviam pessoas na rua. Não havia nada além da escuridão. – Pare de olhar pelo seu ponto de vista! Porque as pessoas fazem isso? Ninguém foi Freesia di Bianchi. Ninguém sabe como é! E não dá pra mudar! E eu não vou me apoiar em você pra mudar, sabe? – Não olhei para ele e tudo ficou em silêncio por uns dois ou três minutos, até que eu me cansei e me virei.
Ele não estava mais lá, nem os meus comprimidos.
Eu não sou nenhuma estúpida, não sou uma pessoa sem coração e sim, eu me importo com as pessoas, por mais incrível que isso possa parecer. Mas, porque exatamente ele ficou tão transtornado? Aliás, porque exatamente ele decidiu levar meus comprimidos com ele? Eu gostava... Gosto do Danilo, adoro a risada dele e a habilidade suprema que ele tem de me fazer rir falando idiotices, gosto da companhia dele e do beijo dele, mas eu não o amo. E se ele me amava, se era isso que ele achava que sentia, ele nunca tinha amado realmente. Não que eu tivesse, mas isso que nós estamos tendo... Isso é o inicio de uma relação, apenas, pode haver paixão, tesão, amizade, mas não amor. É claro, ele podia dizer “Não se mate! Vou chamar seus pais e você vai se foder!” Mas fugir com os meus comprimidos, fazer um discurso motivacional para mim? Isso não é comum.
Saí correndo atrás dele, ele não podia estar muito longe, até porque eu havia trancado as portas. Aí eu escutei o barulho da descarga. E pirei, quer dizer, quem ele achava que era? Corri um pouco mais e o encontrei na porta do W.C. com a maior cara de vitorioso. As covinhas não eram mais tão fofas, os olhos verdes não me seduziam mais, nem mesmo o leve bronzeado ou a lembrança da pele macia. Eu estava furiosa.
– Qual é o seu problema, garoto? – O fuzilei e o sorriso idiota não saia do rosto dele. – O meu problema, Freesia? Nenhum, eu acabei de te salvar. – Ele disse tão calmo que eu quase acreditei. – Me salvar de quê, exatamente, Danilo? Das minhas decisões? Repito, minhas decisões e de mais ninguém. – Dei um passo para frente. Ele riu. – Acabei de te impedir de tomar uma decisão idiota por razões idiotas. Sabe porque você quer se matar? Pelo que você acha que as pessoas acham, porque você acha que é sozinha. Você acha demais. Quem se importa com o fato da sua irmã ser popular? – Ele quase gritou. – Ela também é uma puta, com o perdão da expressão. – Ele deu um passo à frente. – Você acha que é a ovelha negra da família? Pois você não é! As pessoas sabem sim quem você é, e sempre dizem “Ainda bem que ela não é como a irmã” – Eu dei um passo para trás, algo nele estava me assustando. Talvez o fato de ele estar certo. – Sabe porque eu saí contigo? – Ele deu dois passos à frente, estava incrivelmente próximo de mim. – Porque eu te achei gostosa e achei que seria fácil como a Agnes foi. – Ele começou a rir sozinho.
Um riso desesperado.
– Mas eu não sou. E nunca serei, se é isso que você está esperando, pode sair. – Ele continuou parado. – Eu ainda não terminei de falar, Freesia. Você queria saber qual é o meu problema? Eu te digo. – Ele saiu andando em direção ao W.C., de novo. Eu continuei parada. – O meu problema é que você não foi fácil! O meu problema é que você é você e que é a primeira vez em alguns anos que eu penso que eu tenho futuro com alguém. – Ele encostou na parede e olhou para mim, com os olhos marejados, de novo. – Minha ex-namorada se matou. – Mais lágrimas caíram de seus olhos.
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