quarta-feira, 17 de março de 2010
FAST TIMES
"All we ever think about is sex, nothing really matters 'cause we're young."
Leia escutando: Fast Times, The Virgins.
Entramos naquela sessão completamente vazia. Sim, eles escolheram aquele filme infantil idiota que ia sair de cartaz amanhã. Aquele filme que ninguém ia ver. Então, basicamente, só estávamos nós quatro naquela sala. É claro que naquela sala porque o resto do cinema estava lotado de todo o tipo de gente. Mas na sala, bem, na sala só tínhamos nós quatro. E eu acho que vi o Sandro esticando um dinheiro pro lanterninha, porque ele não apareceu por ali. Daí eu lembrei da conversa que havia tido com a minha irmã hoje mais cedo “Ai, sua besta. Mas isso nós já fizemos, ou você acha que eu vejo filmes no cinema?” E aí eu paralisei. Ou aquele idiota, completo idiota, tava achando mesmo que eu ia transar com ele ali? Tocar a minha linda virgindade? Não. Não. Mil vezes não.
Sabe porque não? Bom, porque eu tinha planos pra minha vida... Ou melhor, pro que restava da minha vida. Eu ia morrer completamente virgem. Eu tinha decidido isso, quer dizer, eu não ia correr agora só porque ia morrer. Não. Eu ia viver como sempre vivi, durantes esses longos dezoito anos, até que, bem, até que a vida não me fosse mais suficiente. Isso é, daqui a sessenta e seis dias.
Sentei numa cadeira na frente e ele se sentou do meu lado, daí veio com aquele corpo musculoso pra cima de mim, tentando me agarrar. – Olha, eu não vou dar uns amassos com você, não vou transar com você... Nem sequer vou te beijar, eu vou é assistir esse filme super... Fascinante. Então se você parar de se jogar em mim eu vou agradecer, certo? – Sorri de maneira irônica e então comecei a ver os trailers que passavam na grandiosa tela que estava na nossa frente. Ele se calou e limitou a segurar minha mão.
Depois, quase na metade do filme eu entendi porque a sala estava vazia. Mas que filme chato. Tava até considerando dar uns amassos no Danilo, que tava meio que cochilando no meu ombro de tão chato que o filme era. – Acho que esse é o filme mais chato que eu já vi na minha vida – Eu disse, meio pra dentro, guardando meu comentário super desagradável apenas para mim. – Pelo menos nós concordamos em alguma coisa... – Ele acordou de seu “cochilo” e virou–se pra mim, respondendo com um pouco de rispidez.
– Olha, não vai ficar bravinho comigo porque eu não quero sua língua na minha garganta, eu nunca disse que faria algo, certo? – Eu disse, ríspida também, quer dizer, eu era a estressada aqui. Ninguém podia ser ríspido comigo daquele jeito. – Bravinho? Eu estou fascinado mesmo. – Fascinado? Ai, que piada. Fascinado porque eu sou algum tipo de mutante que não quer sentir suas mãos pelo meu corpo? Ah, peloamor. – Na verdade, você sabe que quase todas as garotas da escola, talvez da cidade gostariam de estar no seu lugar, né? Tendo a minha língua na garganta delas, como você disse. – Ele soltou a minha mão – Mas você não... Na verdade, a coisa que você mais faz é me desprezar, e isso é fascinante... Terei que pensar em maneiras de te conquistar.
– Nossa, como você é engraçado. Então quer me conquistar porque? Porque eu seria seu prêmio? “Olha conquistei a única garota que não tava me querendo! Sou o bom” – O imitei numa voz bem escrota, achei que ele me odiaria por isso, mas ele riu. – Quer dizer, se for isso, não perca seu tempo. – O olhei esperando que ele respondesse. Ele tomou um pouco de ar e então se preparou pra responder.
– Na verdade, eu não quero me sentir o “bom”, como você disse e nem mesmo quero provar pra mim mesmo que eu consigo algo que considero quase impossível... Bem, considerando o que a sua irmã disse sobre você nós não temos nada a ver, mas eu quero tentar. – E aí ele segurou a minha mão de novo, de um jeito seguro, de um jeito que me impediu de derreter, porque eu o teria feito. – Quero tentar porque você realmente é fascinante, faz um tempo que eu estou de olho em você, Freesia. E eu estou simplesmente encantando. – Ele respirou fundo enquanto olhava fundo nos meus olhos incrédulos – E eu acho que posso te surpreender... – E então ele me olhou e sorriu. Aqueles olhos verdes me encarando, me dizendo “Olha como eu sou bonito, olha como eu sou gostoso, que tal você me beijar?” Que estavam me deixando um pouco pirada.
– N–Nossa, eu... Eu não sei o que te dizer. – Fiquei olhando pra ele meio boquiaberta, com uma cara de “olha como eu sou idiota e patética, que tal você me beijar?” Que provavelmente só eu conseguia fazer. E ela era aterrorizante. – Sabia que essa foi a primeira coisa não irônica que você me disse desde que saímos da sua casa? – Eu o olhei com um pouco de vergonha. – Desculpa, eu tenho uma certa tendência a ser insuportável... – E ele me olhou com aqueles olhos verdes de novo, caramba, ele queria me ver derreter quanto mais? – Eu vou tentar uma coisa, não se mexe, fecha os olhos...
Tá, ele ia me beijar. Legal. Muito. Eu provavelmente estou com um bafo de onça, credo. Mas fui lá, fechei os olhos. Senti o rosto dele se aproximando do meu, sua respiração ficando mais próxima, seus lábios estavam quase encostando nos meus e eu podia sentir o cheiro de hortelã que vinha de seu hálito. E aí uma luz surgiu no meu rosto. Eu abri os olhos um pouco assustada e o lanterninha estava ali, na nossa frente com a lanterna na nossa cara, me deixando cega. – Você pode desligar isso? Eu to ficando cega. – Ele apagou e então disse – A sessão acabou há vinte minutos, vocês tem que sair da sala. – Merda. Maldito seja aquele lanterninha. Eu estava prestes a atacá–lo e dar uma de Hannibal com ele quando o Danilo segurou a minha mão e disse – Sem problemas. – Logo me arrastando pra lá enquanto eu lançava olhares assassinos praquele idiota.
Nós saímos da sala e fomos procurar minha irmã e o Sandro mas eles, aparentemente, haviam sumido. – Como eu vou pra minha casa sem ela? – Eu disse num tom de preocupação, quer dizer, se meus pais não fossem tão inúteis eles provavelmente fariam um interrogatório sobre o fato dela ter sumido. É claro que, bem, eles não fariam. Mas eu gostava de me enganar com relação a isso às vezes. – Mas você não vai pra casa agora, ou vai...? Quer dizer, nós nem conversamos muito. – Eu o olhei e então segurei a sua mão. Eu segurei a mão dele, olha isso, que atirada que eu era! E o puxei em direção a Starbucks que havia do outro lado da rua – Então vamos pra um lugar onde possamos conversar. – Ele me olhou sem entender muito e então viu a Starbucks, daí me arrastou pra lá com uma facilidade absurda. Fazendo exatamente o que eu havia tentado há minutos atrás e não havia conseguido graças à minha fraqueza.
Entramos lá e nos sentamos em uma mesa vazia. Algumas garotas olharam pra ele, obviamente o conheciam, mas eu me contive e fiquei na minha. Eu conseguia fazer isso. Acho. – Me fale algo sobre você... – O olhei incrédula, quer dizer, o que eu poderia dizer sobre mim? E daí eu pensei em algo idiota. Completamente fútil – Hm, eu odeio flores. E acho verde uma cor estúpida. – Ele riu, riu alto. Não havia sido tão engraçado. – Então eu acho que terei que comprar lentes de contato... – Eu o olhei, sem graça. Ah, como eu era idiota. Como podia não ter percebido que verde era a cor dos olhos dele? – Não, não precisa... O verde dos teus olhos não é estúpido.
Conversamos por horas, e falamos de absolutamente tudo. Ele disse que me mostraria alguns raps que valiam a pena ouvir e eu mostraria que existe rock que não é pura gritaria. Ele disse que havia gostado da minha camiseta. Eu bati nele porque sabia que estava olhando pros meus peitos. Em três horas ele sabia tudo de interessante que havia para se saber sobre mim e eu, bem, eu acho que ele fazia mesmo o meu tipo. Ele tirou uma foto fofinha minha e colocou no meu contato do telefone, eu fiz o mesmo. Depois, quando minha irmã surgiu eu fui embora. Ele me deu um beijo na bochecha e me desejou boa noite.
Minhas pernas tremeram.
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Hauahauhauahauahaua, que episódio bonitinho. Sério, eu pude imaginar a cena no cinema e, depois, na Starbucks, principalmente quando as meninas olharam pra ele e você, provavelmente, fez uma cara de "pqp, o que eu tô fazendo aqui?". Algo meio Silver e Teddy.
ResponderExcluirPalmas pra citação de Hannibal. xD HAUAHUAHAUAHUAA e por favor, Freesia, se você ler esse comentário, faça o favor de PERMANECER difícil, porque o cara adora isso, é evidente. Aliás, onde a gente acha um homem assim, né? Super cavalheiro, e zaz.
Foto do celular KD.
E maldito lanterninha. (2)
Agora, a parte que me deixou meio triste foi essa: "Eu ia viver como sempre vivi, durantes esses longos dezoito anos, até que, bem, até que a vida não me fosse mais suficiente. Isso é, daqui a sessenta e seis dias."
Mas beleza, vamos para o próximo.